VOCÊ USA BEM O SEU DINHEIRO?

Temos um lado sombrio. Herdamos da linguagem algumas certezas que não teríamos se tivéssemos permanecidos na natureza. Do mesmo modo que a cultura nos deu a consciência da finitude, ganhamos – também – dela a possibilidade de tapear o medo da morte. Pela palavra tomamos consciência da nossa perenidade e descobrimos, como salvaguarda, que podemos sonhar mundos melhores. Pela palavra descobrimos que podemos perder e ganhar amores. Ocorre que a sociedade de consumo vem detonando com a palavra e com as relações humanas enquanto formas de revestimento das nossas angústias. Em contrapartida, essa mesma sociedade, vem incutindo em nossas mentes o uso de futilidades como meios únicos para a vida boa. É bom ter? Sim. A questão não é ter ou não ter – mesmo porque nada do que tivermos nos livrará das nossas dores de viver. A questão é o que ter e por quê ter. A questão é o uso que fazemos do que temos. A questão é o uso que fazemos do nosso dinheiro? A questão é se o que consumimos apenas camufla ou eleva-nos ao encontro do que de verdade temos. Pelo grau de durabilidade do que compramos, é seguro que estamos nos enganando quanto ao uso que estamos fazendo dos nossos recursos. Não tapearemos nossas angústias com objetos descartáveis. Pelo contrário, se descartamos é porque, ao invés de revestir, tais produtos estão é nos expondo ainda mais às nossas angústias existenciais. Parece que quanto mais consumimos, mais desesperados ficamos. Deveríamos consumir o que de fato nos prepara para encontrar esse limite que carregamos. Creio que não teríamos tantos depressivos se a boa arte, a boa música e a boa literatura estivessem sendo consumidas tanto quanto uma marca de sapatos qualquer. Creio que não teríamos tantas pessoas colocando a própria vida em risco se Nietzsche, Sartre e Lacan fossem discutidos em uma mesa qualquer de bar com a mesma intensidade com que se discute o campeonato de futebol do momento. Nosso dinheiro não deveria ser usado para afugentar nossas tragédias inevitáveis. Nada nos poupará. Nosso dinheiro deveria ser utilizado para nos fazer criar uma certa intimidade com o que mais tememos em nós. Nosso dinheiro deveria ser utilizado como meio de aproximação do que de fato, em algum momento, nenhum dinheiro poderá nos livrar. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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