SOBRE AS FORMAS FANÁTICAS DE AMOR, POLÍTICA E RELIGIÃO …

Amamos muito porque não sabemos o que fazer com o desamor. Nossa esperança, quase sempre, espera demais. Nossa fé é sintomática. A questão é quando cremos que pode ser uma coisa só. A questão é a nossa crença no paraíso. A questão é quando cremos que nossos sonhos podem se tornar realidade. É muita ingenuidade acharmos que podemos eliminar todo o desconforto de nós mesmos. Não sabemos lidar com a dor que nos constitui. Por isso, somos tão religiosos. Por isso, somos capazes de cometer absurdos em nome de certas ideias. Somos, excessivamente, românticos. Arrogamos-nos livres, mas somos completamente dependentes de forças que não foram inventadas por nós mesmos. Tomamos certas doutrinas como antídotos do quanto somos doentes de uma parte da vida que sabemos que – em algum momento – teremos que enfrentar em nossa mais absoluta solidão. Por que – quase nunca – queremos resolver por nós mesmos? Por que somos covardes da nossa subjetividade? O problema é quando estamos certos de que a saída é pelo amor que aprendemos nos livros. O problema é quando achamos que a saída é pela política de uma certa liderança ou pela religião de um certo guru. Não é. Por isso não suportamos não sermos amados. A questão é o quanto nos igualamos ao fanatismo que tanto criticamos no outro. O problema é quando perdemos a nossa auto-crítica e achamos que estamos certos de alguma coisa. O problema não é a religião ou a política. A questão é o uso doentio que fazemos de nossos partidos e de nossas igrejas. Crer demais é sempre sintomático. O problema somos nós. A questão é o que se passa em nossas mentes. A questão é quando estamos seguros de que isto ou aquilo resolverá nosso problema. O problema é o que recalcamos com nossos sonhos e fantasias. Não esperamos para ver. Por isso, deprimimos. Por isso, ficamos ansiosos. Quantos não dão fim à própria vida? Não sabemos o que fazer com essa parte da vida que nada resolve. Somos preguiçosos de nós mesmos. Não sabemos lidar com o que nos falta. Por isso, não desapegamos de nossas crenças e ideologias. Muitos estragos ainda faremos, enquanto não encontrarmos um outro jeito de saber-fazer com o desamor, com a angústia e com a morte, sem o recurso da religião e das ideologias políticas. Muitos estragos ainda faremos enquanto não tomarmos, como sendo nossa, uma certa parte da vida que diz respeito – exclusivamente – a nós mesmos.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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