O QUE OS LOUCOS NOS ENSINAM DE BOM?

A loucura – nas últimas décadas – mudou – para muito melhor – nosso modo de conduzir a vida. A loucura é a mais antiga das formas de transgressão. Nunca existiu qualquer tipo de organização social capaz de controlar os loucos. A loucura não quer saber de nada. Ela é a mais absoluta das verdades. Os loucos vivem como sentem. Eles não estão nem aí. A loucura não tem contrários. Os loucos não fingem. É uma outra linguagem. É uma outra forma de viver deslocando, apagando e rasurando o próprio existir. Curiosamente, a grande maioria dos loucos não fazem mal e não se fazem mal. Os loucos só são um risco quando são impedidos de viver as suas loucuras. Os loucos são tudo o que não damos conta de ser: não se disfarçam e não se mascaram. São os únicos que conseguem viver o que seus corpos ditam. Não possuem dois mundos. Não são metafóricos: são literais e litorais. Os loucos só escutam a si com apenas uma letrinha que inclui o outro. Neles, não é a palavra que dita o corpo. Seus corpos berram e eles escutam literalmente e sem nenhum julgamento moral. Os loucos exploram tudo do sem sentido de seus organismos. Não procuram no externo suas conduções. São materialmente sensitivos. Os loucos vivem o que mortificamos. Gozam com o que deixamos para trás. Para os loucos, o que tomamos por dejetos é que são os sentidos de suas vidas. São a felicidade que tanto tememos experimentar. Resgatam nossos antepassados de quando vivíamos com pouquíssima razão. São os nossos adultos como as nossas crianças que vivem sem nenhuma vergonha tudo com suas mamães. Estão em um tempo em que era a língua do corpo que ditava as regras. São intuitivos, sensitivos e telepáticos. São puros. Perdemos a nossa loucura e ainda pagamos um preço muito alto por isso. Contudo, nossos loucos venceram. Não é mais possível conter a loucura. Hoje, estamos nos perguntado: o que é ser normal? Não existe mais o normal nem em teoria. Felizmente, parece que agora podemos ser. Podemos ser o que quisermos: a razão não mais prepondera. O mundo virou uma loucura ordinária. Muitos trabalham e são loucos. Muitos estudam e são loucos. Aprendemos que podemos a loucura sem desordem. A loucura é a diversidade. A loucura é a tolerância. Estamos aprendendo a loucura. Qualquer um pode experimentar a sua loucura – com a condição de não poder por em risco a sua própria loucura ou a loucura do outro. Agora, a loucura é que é o limite. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s