POBRE É POBRE PORQUE É VAGABUNDO?

É assustador a rapidez com que o tecido social vem se degradando no Brasil. Tenho visto – ao menos aqui em BH – um aumento considerável de pessoas perambulando – famintas – pelas ruas.            Até bem pouco tempo, a coisa não estava tão ruim assim. Isso é muito comum em sociedades capitalistas como a nossa – que entende o desenvolvimento econômico como sinônimo da ausência de políticas públicas para os mais pobres. Para essa lógica, prover os desprovidos de renda gera acomodação. Prevalece o dito: quem não tem competência não se estabelece. É o princípio do cada um por si – inclusive usando figuras como as do apresentador Silvio Santos que de camelô virou um grande empresário das comunicações no Brasil. Ele se virou e conseguiu: mérito dele. Se você quiser, você pode também: é esta a ideologia. O que não se discute são os mecanismos utilizados por ele para chegar a esse fim. A ideia é que quanto pior a situação, mais o miserável se implicará em sua desgraça e procurará uma saída por si mesmo. Será que a questão é tão simples assim? Uma coisa é dizer “se vire” para alguém que acabou de perder o emprego e possui uma estrutura familiar, educativa e técnica. Outra, é dizer “se vire” para alguém pobre, sem qualificação, negro e mulher – curiosamente, a grande maioria da população brasileira. Estávamos caminhando para uma maior igualdade de condições. Tiramos trinta milhões da linha da pobreza, colocamos milhões de jovens da classe trabalhadora no ensino superior e condicionamos diferentes programas de transferência de renda à frequência escolar e aos cuidados com a saúde. Todos esses projetos – com duração definida – visavam melhorar a competitividade dos brasileiros mais pobres no mercado. Tudo isso está indo por terra. Vem prevalecendo a ideia de que os pobres – se quiserem – terão que rezar a falsa cartilha da meritocracia dos ricos. Sabemos que as coisas não são tão simples assim. Tanto é verdade que os nossos ricos só estão cada vez mais ricos porque nossos pobres cada vez mais pobres. Estamos – mais uma vez – perdidos, caso o setor público deixe de ocupar esse lugar de trazer para dentro do jogo essa grande maioria que o sistema insiste em culpá-los por seus fracassos – lavando as mãos – como se eles fossem apenas vagabundos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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