POR QUE PARECE QUE NUNCA SAÍMOS DO MESMO LUGAR?

Tínhamos todas as condições de assumir a dianteira do mundo. Conseguimos retirar trinta milhões de pessoas da linha da miséria. Estávamos caminhando para uma maior igualdade de condições entre ricos e pobres. Tivemos significativo crescimento no número de matriculados no ensino superior. Nunca conseguimos, em quinhentos anos de história, um projeto parecido com o Farmácia Popular. Passamos a tratar nossos empregados domésticos como cidadãos de direitos. Avançamos nas questões raciais. Nunca se viu tantos negros frequentando nossas universidades públicas. Pautas LGBTs e Feministas ganharam a ordem do dia. Estávamos mais felizes e mais esperançosos. Sentíamos que parecia que, finalmente, estávamos caminhando para uma sociedade menos desigual. Só queríamos garantir aos nossos excluídos uma fatia, ainda pouco significativa, das benesses desse nosso mercado consumidor de primeiro mundo. Se antes os pobres apenas salivavam diante das vitrines, agora podiam começar a adquirir uma coisinha ou outra, que nossa elite sempre fez questão de ostentar. Hoje, parece que voltamos à estaca zero. Parece que a ideia é que pobres e negros, se quiserem, terão que buscar o que necessitam por conta própria. Curiosamente, em condições piores que aquelas de quando o Brasil tinha mais da metade de sua população abaixo da linha da pobreza. Teremos que sobreviver sem nossos direitos trabalhistas e previdenciários. Quer dizer, não sobreviveremos. Voltaremos aos anos oitenta, onde a miséria era caso de polícia com uma prática de extermínio. Só ensaiamos um Brasil de brasileiros de cabeça erguida. Vivemos um intervalo bonito. Parecia um grande recreio. Nossos aeroportos estavam mais movimentados e nossas avenidas mais festivas. Nossas estradas – em feriados prolongados – pareciam uma celebração litorânea. Achávamos que, em muito pouco tempo, íamos andar o que não andamos há séculos. A festa acabou. E agora José? Agora é cada um por si. Quase chegamos lá. Agora voltamos para uma sociedade de esquecidos. Não reconhecemos mais que, para muitos, não é tão simples assim esse cada um por si. Para poucos, é fácil. Para o povão, não é bem assim. Estávamos tateando facilitar para os muito pobres. Cortamos o barato da grande massa no meio do caminho. Todo o tecido social já está em um processo complicado de degradação. Quase conseguimos olhar para o Brasil como um país próximo dos países de primeiro mundo. Batemos na trave. Retrocedemos. A casa grande quer retornar com todo o resto para a senzala. Ainda não aprendemos o significado de direitos iguais. Infelizmente, ainda continuaremos sendo um Brasil para poucos. Parece que venceu o país do só para ricos, brancos, machos e héteros. Teremos que começar tudo de novo. Esperamos que aquele experiência – ainda que tímida de melhora – sirva de mote para reacender a luta por um país menos brutal para todos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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