COMO O NOSSO CORPO FALA?

Escutamos pouco o nosso corpo. Achamos – ou gostaríamos – que ele só falasse a língua da nossa alegria de viver. A felicidade é uma linguagem, tanto quanto a tristeza. O corpo nunca julga seus sentimentos. O corpo apenas responde. É a mente que julga, hierarquiza e condena o que o corpo sente. A mente é inimiga do corpo. A mente cria uma disciplina que não existe no corpo. A mente cria ideais que só detonam o corpo. A tristeza não deveria ser triste – tanto que para certas coisas não existe nenhum outra resposta que não a tristeza. Tem hora que não tem outro jeito: temos que ficar tristes. É a única resposta possível. O corpo tem vários jeitos de falar. Cada um com uma sensação diferente. Cada um com uma intensidade diferente. Não adianta condenar a tristeza. Não adianta dopar a melancolia. Não adianta entupir a depressão de teorias. Esses sentimentos – quando despertados – possuem – cada um – um ciclo próprio de duração. Não existe cura para a tristeza. A melancolia deveria ser vivenciada com a mesma alegria da felicidade. Posso e devo enxergar a angústia como parte constitutiva da minha existência. Devo me preparar para vivenciar – com tranquilidade – meus momentos mais depressivos ou mais melancólicos. Não tenho outra alternativa. Posso estar triste agora como eu poderia estar alegre. A felicidade não é uma decisão mental. Não existe treinamento para a felicidade. A emoção vem do corpo. É ele que decide. A mente não entende o corpo. Nosso problema é mental. Nossa solução vem da nossa capacidade de escutar e de aceitar o modo como nosso corpo responde. A mente combate o corpo. A minha mente verdadeira é essa que fala pelo meu corpo. Ela – sim – é contraditória. Ela – sim – ora está triste e ora está alegre. Ora ela ama e ora ela odeia. É assim que ela é. É assim que sou. Essa é a minha verdade. Não devo ser comandado pelo que minha mente diz de mim. Minha verdade não é mental. Minha verdade é carnal. Devo ser comandado pelo que meu corpo diz de mim. A minha verdade é o que meu corpo diz de mim. Devo tomar meus sentimentos com toda a naturalidade que lhes dizem respeito. Tenho que dar conta de vivenciar bem a minha tristeza todas as vezes que for para ficar triste. Não adianta eu lutar contra. É só me aceitando triste que vivenciarei – com serenidade – todo o circuito da minha tristeza – determinado pelo meu corpo e independente da minha vontade. A tristeza vem e vai, do mesmo modo que a alegria. São as respostas que meu corpo consegue dar. Não as controlo. Não as programo. Quando me dou conta, já estou tomado por elas. Daí, só me resta viver e esperar. Evaristo Magalhães – Psicanalista

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