ONDE ME DESCUBRO QUEM SOU?

Sabe onde eu me descubro quem sou? Onde não sou. Que lugar é esse? É aquele lugar que só dói. É o vazio, a solidão, a angústia, a ansiedade. É onde não tem palavra. A palavra não sou eu. A palavra me foi inventada. As regras da linguagem me foram dadas na escola. Não posso dizer como eu quiser. Não posso comer como eu quiser. Não posso sentar como eu quiser. Contudo, a minha solidão, onde sou, me toma, me persegue e me perturba o tempo todo. Minha existência não me deixa sossegado de ser eu mesmo. Essa angústia – às vezes mais forte e às vezes mais fraca, mas sempre presente – sou eu querendo explodir em minha própria gramática. É aí que eu tenho existir. Essa é a minha casa. É dessa dor que eu tenho que me definir. Enquanto eu não me for nela, permanecerei dolorido de mim. Tem que sair alguma coisa de mim daí. Só assim não serei mais atacado por ela. Não é o outro que me dói. Sou vítima da minha própria covardia. Posso me enfrentar e fujo de mim. Posso me ser e me temo. Tenho vergonha da parte de mim que eu poderia negociar com o outro. Não me deixo existir até quando eu poderia. Levo o outro até onde não existe a menor possibilidade de sua presença. Sou um capacho das palavras prontas. Prefiro me doer a me gozar. Quando é que vou me arranjar comigo? Quanto mais tempo eu demorar, mais tempo me perderei de mim. (para Hortência Novais)Evaristo Magalhães – Psicanalista

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