O SISTEMA É DOENTE …

Se buscarmos nossa estabilidade emocional do lado de fora, é certo que não a encontraremos. O sistema não é estável. O sistema não prioriza as relações humanas como um bem maior. O sistema nos quer a sós. Ele diz que podemos ter, quando nunca conseguimos: o corpo nunca é o que somos e o carro nunca é o que temos. A nossa felicidade está sendo o tempo todo postergada em objetos que mudam o tempo todo. Contudo, a grande maioria embarca nessa ilusão e não consegue fazer outra coisa senão viver para consumir uma felicidade que nunca chega. O certo é que não somos mais a felicidade de quase ninguém. A maioria vive crendo na felicidade pelo ter. Não somos mais o melhor gozo do outro. Quando o somos, é só quando nos dispomos a ser um objeto como outro qualquer. O sistema termina em frustração. O sistema termina em depressão. Durante muito tempo, essa lógica funcionou como uma bola de neve de quanto maior a ansiedade, maior o consumo. Parece que a ficha vem caindo: as pessoas estão se dando conta dessa ilusão – e por não saberem o que fazer com suas angústias, fora do sistema, estão pondo fim à própria vida. Muitas entram em depressão como uma forma de fuga dessa lógica carrasca. O sistema é mórbido. Há saídas? Sim. A longo prazo, lutar e tentar resgatar a presença do outro como um valor fundamental para a nossa alegria de viver. A curto prazo, não podemos deprimir e nem morrer: temos que nos a ver com essa solidão, e que é resultante de um falso sentido de viver pelo mercado. Como fazer isso? Temos que descobrir quem somos por nós mesmos – uma vez que não é mais possível fazer isso pelo lado de fora. Tenho que descobrir o prazer de viver comigo. O sistema vem nos encurralando para uma única alternativa: um modelo mais autista de viver. Não podemos buscar mais fora de nós mesmos os acontecimentos da nossa alegria. Tenho que fazer de mim o meu próprio acontecimento. Tenho que dar conta do que posso inventar comigo. Não há mais tempo para o outro. O sistema tomou o lugar do outro como o único meio de realização pelo consumo. Os que podem estão obcecados pelo ter, enquanto se acotovelam nos diversos templos de consumo. Enquanto outros – violentos – tentam participar – de alguma maneira – dessa farra com final – quase sempre – não muito feliz. Contudo, muitos estão – agora – em suas solidões de culpa, como se fossem não merecedores do amor de ninguém. A verdade é que sobramos nesse circo de ilusões. Contudo, ainda temos a nós, e temos que fazer um acontecimento de nós mesmos para nós mesmos. Não temos outra alternativa: é o que nos resta. Isso é de cada um. 

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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