POR QUE NÃO POSSO GOZAR COMO EU QUISER?

Quando estou vivendo um momento, não devo me preocupar em como viverei o momento seguinte ou qualquer outro momento que não seja este que estou vivendo agora. Devo me preocupar somente em como viver o melhor possível isto que tenho aqui. Devo me preocupar em descobrir quais prazeres posso usufruir agora, de tal modo a eliminar o máximo de desconforto possível – até eu atingir – talvez – tudo de prazer que eu puder viver. O prazer de depois não existe: sequer estou seguro de que estarei vivo. Fora que não posso pensar – agora – acerca do que viverei depois. Não posso pensar algo que ainda não vivi. O que viverei precisa esperar acontecer. É seguro que ele não será conforme estou pensando nele agora. Desse modo, só perco tempo tentando adivinhar o que vai acontecer ou ensaiando uma solução que – seguramente – se perderá naquele contexto específico. Não existe palavra para o depois. Os afetos mudam. Cada situação é única. É por isso que sofremos: queremos nomear os nossos afetos como se eles tivessem sempre os mesmos nomes. Sofremos quando aplicamos os padrões ao nosso hoje – temos a sensação de que nunca estamos sendo nós mesmos. Só posso ser eu mesmo quando vivo cada um dos meus afetos: é aí que me reinvento e que me encontro em minha verdade. Não devo procurar fora de mim a solução do que me falta. Por que não a procuro dentro de mim? Porque temo sentir. Só sei desejar o desejo do outro. Vivo mais para o outro que para mim. Temos a mania de achar que somos os mesmos o tempo todo. Não somos. Por que nunca me sinto feliz? Porque não me abro aos meus afetos de cada momento. Fico preocupado em viver o afeto que o outro padronizou para eu sentir agora. O gozo – para tudo – já foi estipulado. Não posso dormir como eu quiser. Não posso rir como eu quiser. Não posso falar como eu quiser. Não posso gozar como eu quiser. Tenho sempre que adaptar meus afetos aos outros afetos: jamais serei livre assim. Só serei livre quando eu deixar de permitir que digam como devo sentir. Só serei livre quando as palavras nascerem tatuadas do que sinto. Só serei livre quando eu for capaz de criar a minha própria gramática como um livro em aberto – uma vez que jamais conseguirei decifrar tudo o que sinto. Isso é muito bom – porque terei, o tempo todo, a oportunidade de ir vivendo cada afeto de cada minuto que tenho para viver. 

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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