O QUE É UMA PESSOA CARENTE DE AFETO?

Por que fico ansioso esperando um contato? Por que olho meu zap a todo minuto? Por que necessito tanto que alguém se interesse por mim? Por que quero que alguém me queira como companhia a qualquer custo? Não é o outro que eu quero. Quero é a mim nele. Como não consigo me jubilar em meu espelho, preciso que alguém me jubile. Continuo – como uma criança – esperando alguém que me diga quem sou. Sou um desesperado de mim. Não quero o outro: quero a minha existência que está nele. Só o outro é que possui a chave de mim. Não é ele que me procura: sou eu quem o procuro para que ele me diga quem sou. Minha ansiedade é sintomática da beleza que não consigo me dar e, por isso mesmo, a busco fora de mim. Parece que estou à procura de alguém o tempo todo. Saio pelas ruas olhando todo mundo – compulsivamente. Olho o tempo todo – especialmente para aquelas que possuem os atributos que eu gostaria de ter. Na verdade, eu não olho para as pessoas: olho para mim nelas. Parece que estando próximo delas é como se eu estivesse comigo – tanto que não suporto quando sou abandonado. Não sou ninguém longe do outro que me é. Não consigo me ver e me gostar. Minha relação comigo é uma interrogação crônica. Eu não suportaria viver comigo mesmo. Sou completamente depende de alguém para existir. Eu não sobreviveria se tivesse que dar conta de mim sozinho. Só me serve quem tem o que me falta. Descarto quem eu considero ainda mais faltoso que eu. Sou um caçador de mim fora de mim. Preciso submeter alguém a mim para amenizar esse meu desespero de mim. Já fiz chantagem para não ter que voltar para a minha solidão. Fico o tempo todo esperando que as pessoas me digam o que quero ouvir. Já aconteceu de eu pedir. Já aconteceu de eu implorar. Já aconteceu de eu pedir para repetir várias vezes, porque eu não estava acreditando que era para mim. Delimito as palavras que o outro pode me dizer. Vou manipulando o outro até conseguir o que quero. Só apaixono por alguém que tem tudo o que eu não tenho de mim. Dou para o outro só o que me falta. Não estou para ele, porque ele já é a minha completude. É por isso que sou sempre abandonado: porque sempre acho que o outro não necessita de mim em sua completude. Nunca o olho como um igual a mim, porque sempre sou eu o pior na relação. Só darei conta de mim, no dia em que eu entender que todo mundo vai acabar se identificando comigo após ler esse texto – uma vez que, a completude que acredito existir fora de mim, não passa de coisa da minha imaginação. A partir daí, vou me dar conta de que essa arrogância das pessoas que parecem completas, é puro jogo de sedução para tomar de mim tudo o que falta nelas.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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