O AMOR NÃO PODE SER VISCERAL…

Não podemos amar visceralmente uma pessoa. A pessoa é livre para ir e vir quando quiser. Podemos ser viscerais com nossos pais e irmãos: a família é para sempre. Não conheço ex-pai ou ex-irmão. Podemos ser viscerais com o que não tem vontade própria. Podemos amar de modo absoluto um cão ou um gato. Podemos amar loucamente um filme, um livro, uma casa ou um carro. Não podemos confundir o amor pelas coisas com o o amor pelas pessoas. Não é possível amar visceralmente qualquer pessoa: ela não suportaria tanto amor. O amor visceral é possessivo, objetal e simbiótico. Não é um amor de dois respeitando autonomia de cada um. É um amor que visa tomar o outro inteiro e o tempo todo para si. Não é um amor que suportaria uma falta. É um amor totalmente perdido no outro. É um amor que não permite ao outro pensar em si mesmo. É um amor capaz de abri mão de todos os seus vínculos, de toda a sua história, de todo o seu intelecto e de todos os seus valores apenas para viver um grande amor. É um amor melancólico: a ausência do amado deixa um buraco do tamanho do universo. O amor visceral só pode acontecer pelo que se permite ser possuído sem questionar. O amor visceral só pode ser pelo que posso dizer – literalmente – que me pertence. O amor visceral é metonímico – porque enlouquece com sentidos dúbios. Ele é radical. Ele não abre de não ser correspondido porque é arrogante: não existe outro amor mais amoroso que o seu. Ele é todo o amor que existe – ao ponto de não ver nenhum sentido em viver se não for para viver esse amor  da forma mais plena que a própria plenitude.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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