NAMORADO NÃO É PAI & NAMORADA NÃO É MÃE…

Não deveríamos sofrer quando o outro não vem. Sofremos porque confundimos esse amor com outra coisa que ele não é. Sofremos quando projetamos em nossos amores mais que o amor: projetamos alguém que resolveria nossa dificuldade de lidar com a nossa própria solidão. Cada amor tem a sua especificidade. O amor de casal não pode ser confundido com o amor de mãe para filho. Podemos contar com o amor de mãe a qualquer hora e a vida toda. O amor de mãe é incondicional. O laço de amor materno não pode ser desfeito. O laço de casal, ao contrário, é bem mais frouxo. Ninguém suporta amar quem quer ser amado como um filho sem ser um filho. O amor de casal é só mais um amor que a gente tem na vida: tanto que podemos desamar desse amor quando quisermos. O amor de casal não priva as suas partes de amar outros amores fora desse vínculo conjugal. O amor de casal pode faltar. O amor de mãe nunca falta: mãe é para a vida toda. Namorado só o é enquanto namora. Não podemos pretender amar para a vida toda. Quem quer para sempre, não suporta a ausência. Toda a falta é suprimida pelo controle de onde o outro foi e com quem ele estava. A confusão entre namoro e filiação aparece toda vez que o celular do outro é vasculhado. Ou seja, tenho que ter certeza – o tempo todo – do amor do outro por mim, como tenho certeza do amor dos meus pais por mim. Os amantes confundem sentimento com laço sanguíneo. O amor de namoro não é nada disso. No namoro o laço é bem menos profundo. O outro chegou no meio da minha história. Ele já veio com uma história. Ele chegou com um tanto de outros amores. O amor dele por mim é só mais um que ele quer viver. Ele não consegue me amar incondicionalmente. Ele nunca estará para mim como eu quero. Ele virá para o meu amor apenas quando ele quiser. Ele poderá deixar de vir. Eu nasci e vou morrer com o amor de minha mãe. Minha mãe é capaz de deixar qualquer outro amor por mim. Não sou mais um amor da minha mãe: sou (o) amor da minha mãe. Não posso confundir amor de amante com amor de mãe. Mãe é para sempre, mesmo estando ausente. No namoro – ao contrário – a ausência é que pode ser para sempre.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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