SOBRE UMA PESSOA QUE SE ODEIA …

Não gosta da boca que tem. Odeia os próprios dentes. Não gosta do desenho do próprio nariz. Tem problema com seu cabelo. Não gosta dos próprios  braços e das próprias pernas. Acha seus pés disformes. Queria ter outras mãos.

Não gosta da forma do próprio  abdômen. Não gosta do seu cheiro e da própria cor.

Detesta recordar seu passado. Queria tudo diferente. Detesta trabalhar. Detesta conviver. Acha tudo um saco.

Não queria morar em seu próprio  país. Tem problemas para dormir. Reclama da comida. Arrepende quando compra. Queria ser outra.

Não entende como as pessoas   sobrevivem. Nada está bom.

Força uma simpatia. É amarga, triste e revoltada. Não tem planos para continuar. Não vai suportar se não puder ser outra pessoa.

Gostaria de nascer de novo. Acha que não pertence ao mundo que habita. Gostaria de ser mais bela, mais amada e mais reconhecida. Vê-se como um dejeto, um lixo, um resto. Sente-se sempre rejeitada.

É sempre a pior, a mais feia, a mais pobre e a mais burra.

Só apaixona por quem gostaria de ser. Quase morre quando não é correspondida. Sempre acha que o amor do outro a tornaria melhor .

Ama para ser resgatada. Ama para ficar perto de quem gostaria de ser.

É uma invejosa ao extremo.

Por que essa pessoa se vê assim? Por que se desfaz tanto de si? Por que se vê assim tão bizarra?

Ela precisa escutar sua feiúra. Precisa atravessar seu discurso. O que será que existe depois dele? Não é possível que tenha outro ainda pior que esse.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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