O SEXO PELO SEXO …

Até bem pouco tempo era amor e sexo. Agora é o sexo pelo sexo. No tempo do amor e sexo, as relações perduravam. Não era só sexo: havia cumplicidade e amizade. Havia dependência e troca. O mundo era menos autista, menos narcisista, menos arrogante e menos desconfiado. No sexo pelo sexo – ao contrário – tudo é muito descartável. Tudo é muito corpo, carne, orgânico e imagem. Tudo aparece como fenômeno de corpo e como evento de corpo. Amor e sexo – como nos moldes tradicionais – não existe mais. Será que dá para salvar alguma coisa de romantismo no sexo pelo sexo? O que dá pra salvar em uma relação que dura uma noite ou – no máximo – duas horas? É possível introduzir algum saber nesse sexo – de tal maneira que ele se torne um saber-fazer-sexual? O quê de humano é possível introduzir nesse sexo – de tal maneira que ele se torne algo a mais que um simples evento de corpo? Eu não consigo fazer sexo pelo sexo. Contudo, acho plenamente possível, introduzir algum humanismo em um encontro que pode durar apenas duas horas. Como fazer para que o sexo pelo sexo não fique reduzido ao sexo pelo sexo? A saída é pelo gestual. A saída é pelo toque. A saída é pelo olhar. A saída é tentar marcar o outro com algo bem próprio nosso. A saída é deixar algo de muito nosso nele – de tal maneira que ele queira fazer de novo. O diferencial está na pegada. Por isso, temos que caprichar no beijo. Temos que caprichar na penetração. Temos que caprichar no orgasmo. A sedução vai pelo jeito de corpo. No sexo pelo sexo não são as ideias que vinculam. O vínculo passa quase totalmente pelo ato. O amor é mais reflexo. O amor é mais literal. O amor é mais empírico. O amor é feito. O sexo não espera pelo amor. O amor vem junto com o sexo. Seduzimos pelo saber-fazer. O que liga é a pegada. O que liga é a química. O amor é mais sutil. O amor aparece entremeado na fissura da transa. O amor aparece no jogo de corpo, no tremor da excitação, na volúpia da boca, no olhar esfuziante e na destreza das mãos. Somos amados – quase exclusivamente – pela nossa performance. O amor aparece quando é bom. O amor aparece quando dá vontade fazer de novo. O amor aparece quando um pega fogo quando encontra o outro. O amor aparece quando todo mundo fica com todo mundo, mas nada é parecido quando um cruza – casualmente – com o outro – mesmo que os dois sequer saibam o nome um do outro.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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