NÃO SOMOS DESSE MUNDO…

Nunca estamos atentos ao dia que amanhece, ao sabor do café e a delicia do pãozinho com manteiga.

Sempre damos um valor secundário ao bom dia do vizinho. Sempre estamos no automático para a caminhada na praça e a comprinha no mercadinho da esquina.

Pouco importamos com os gestos de atenção dos nossos próximos. Pouco valorizamos o carinho da mãe, do porteiro e do atendente da padaria.

Quase não nos permitimos viver o prazer do que temos de fato. Sempre julgamos o que temos como faltoso para a nossa alegria de viver.

Somos divididos entre o que somos e temos e o que gostaríamos de ser e de ter.

Nunca é o beijo que ganhamos. A transa ainda não é essa.

É assustador como as pessoas gostam de falar de si a partir do que não são.

Não somos desse mundo. Vivemos de outros mundos. Vivemos mundos que não existem. Somos ansiosos de outro mundo que está sempre por chegar.

Parece que quanto mais alucinamos, mais achamos que estamos no caminho da felicidade. Aprendemos que viver é sonhar – e quanto mais alto melhor. Foi para isso que a escola entrou em nossa vida: uma pessoa que não sonha, não existe. Incutiram em nossa mente que a beleza de viver nunca é aquela que temos. Iludimos de que só somos alegres imaginando coisas. Vivemos de postergar a felicidade. Definitivamente, a felicidade não está na inteligência de inventar mundos ilusórios. Isso não é inteligência. Estamos  perdendo tempo do nosso prazer enquanto viajamos em nossos paraísos que nunca existiram para ninguém. O pior é que esse tempo que estamos perdendo não voltará nunca mais. Estamos sendo enganados por uma suposta inteligência que alimenta-se de uma falta que – no fundo – não existe.

A felicidade é débil. É angústia na certa misturar a inteligência com a alegria de viver. Questionamos quem somos para começar a sofrer. Aprendemos que o inédito é o que ainda não é. Fugimos tanto de quem somos, que o inédito agora é aprender a fazer o caminho inverso. O inédito agora é recuperar o prazer de viver – nesse exato momento – com tudo o que temos e somos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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