PARA VIVER BEM, APESAR DE…

A morte não está lá na frente. O que é nosso está conosco desde que nascemos. Estamos morrendo enquanto estamos vivendo. Não adianta sofrer. Não adianta entrar em pânico. Não adianta ficar deprimindo. Nossa morte está antes, durante e depois de nós. Não temos remédio para isso. Nada e nem ninguém pode nos livrar disso. O que é possível de ser feito? A morte está dada. O máximo que podemos é fazer furos nela. Podemos fazer buracos na nossa morte e inventar alguma coisa bacana para colocar dentro dele. Apenas isso nos foi permitido fazer. Podemos criar sulcos sobre a nossa morte e ir brincando de deslizar dentro deles. Vamos pela vida esburacando a morte. Cada movimento que fazemos é uma pequena cratera que abrimos sobre o fato de que estamos morrendo. Não adianta criar filosofias. Não resolve inventar doutrinas. Muito menos sonhar com um milagre da ciência. Para onde corrermos, nossa morte estará lá. Contra a morte só nos resta agir. Podemos abrir um tanto de poços nela. Podemos dançar dentro dessas cacimbas. Podemos fazer poesia dentro nessas fendas. Podemos viajar nesses túneis. Não podemos é temer a morte – mesmo porque isso de nada adianta. Melhor é ver o que de prazer dá para esburacar nela. Sempre termina em depressão uma felicidade que não nasceu cavacada da morte. A questão não é a morte. A questão é o que podemos fazer sobre o fato de que estamos morrendo. Não adianta perguntar porque morremos. Foi nos dada a morte. Também nos foi dado uma infinidade de coisas que podemos fazer pisoteando nela. Não é esperado que alguém adiante o tempo natural da sua morte. Espera-se que cada um rasgue a sua morte e crie algo de si nessa fenda. Só podemos cerzir a nossa morte. Quantos não deixam de viver porque não concordam com o fato de que vão morrer um dia? Quantos não deixam de viver travando uma luta contra ela? Não adianta brigar contra. Melhor é criar rachaduras de vida nela. Não seria melhor aceitar a certeza da morte? Não seria melhor usufruir do fato de que a morte é certa? Contra a morte só existe um caminho: pegar uma picareta e ir abrindo fossas de coisas interessantes sobre ela. Aceitar a morte é o melhor a fazer para começar a trabalhar pela vida. A felicidade é como um arado que rompe a dureza da morte para fazer com que algo de bonito brote dela. Morrer é o que temos de mais certo. Viver é o que podemos perfurar sobre a nossa morte. Não se trata de vencedores ou perdedores. Trata-se de ir vendo o que é possível de ser plantado na dureza da terra da morte. Essa semente ninguém acha para comprar. Essa terra ninguém pode preparar em seu lugar. Cada um tem que inventar a sua própria semente. Cada um tem que ter a sua própria pá. Cada um com seu jardim. Feliz de verdade será aquele que conseguir fazer nascer alguma coisa da única certeza possuímos da vida: a certeza de que estamos morrendo e de que vamos morrer um dia.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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