TROCAMOS O PRAZER DE VIVER PELO DESESPERO DE VIVER …

Ninguém sente frio na barriga igual. A emoção é de cada um. Cada emoção é única. Toda emoção é completa. Temos tudo para emocionarmos o tempo todo se quisermos. Somos o que nos faz tremer as pernas. Contudo, estamos mais preocupados com o sentido utilitário da vida que com o sentido sentimental de viver. Deixamos de lado o que de fato vale viver. Valemos mais pelas teorias que dominamos. Valemos mais pelos gráficos e tabelas que interpretamos. Valemos mais pela capacidade que temos de resolver problemas que não acabam nunca. Importa apenas saber qual a melhor área de atuação do mercado no momento. Impossível saber. Por que? Porque mundo gira e porque tudo muda o tempo todo. Trocamos a estabilidade do emocionar pela instabilidade do ter que nunca satisfaz. Desse modo, reduzimos nosso viver ao infinito. Viramos seres a procura. Viramos compulsivos da atualização. Fomos colocados em um fosso do que nunca vem. Temos que saber do que ainda não foi. Temos que nos adiantar ao diante do diante. Trocamos o prazer pelo desespero. Trocamos o gozo pela fissura. Trocamos a alegria de viver pelo medo de perder o emprego. O mercado consumiu nosso viver. Não temos mais tempo para tremer as pernas. Não sabemos mais apenas saborear. Não enchemos mais os olhos. Não apenas somos. Estamos sempre sendo. Contaminamos nossas emoções com nossas preocupações. Trocamos o certo pelo duvidoso. Não tem preço uma taquicardia de emoção. Nada é comparável a um respirar profundo diante do belo. Viramos seres sem respostas. Trocamos o UM único da emoção pela indefinição. Trocamos o olhar sereno pela ansiedade eletrizante. Escolhemos um caminho sem fim. Estamos melancólicos porque o tempo todo temos que recomeçar do zero. Vivemos de calcular os riscos e de pensar estratégias. Não temos mais tempo para o prazer de viver. Não olhamos nos olhos. Perdemos o hábito da contemplação. As pessoas embruteceram. A natureza se tornou um meio. O fim deveria ser gozar de tudo o que a vida é e não do que ela ainda será. O fim não deveria ser a sensação de prazer sempre postergado. Esquecemos do que temos e somos. Viramos seres em busca do nunca.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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