SOBRE A VERGONHA…

Ter vergonha é um modo de dizer de alguma fidelidade a certos valores. A vergonha é a submissão a certas regras sem as quais a vida não teria o menor sentido. A vergonha é como eu me olho. Eu me olho como se meus valores estivessem me olhando. Se não me olho – deixo de existir. Se não me olho – torno uma coisa qualquer. Parece que perdemos esses valores. Parece que perdemos a vergonha, o pudor, o prestígio e o temor. Parece que estamos nos perdendo de nós mesmos. Tudo se inverteu: as pessoas não se olham e nem se ouvem mais. Viramos um turbilhão desregrado de impulsos. Nas redes sociais exibimos ainda mais ao descobrirmos que estamos sendo observados. Não há limites. Estamos entregues. O olhar do outro sobre mim perdeu consistência. Não há mais pudor no encontro com o corpo do outro. Não há mais um outro nesse encontro: só há um corpo. Não podemos gozar às avessas dos nossos valores. Que sentido teria a vida sem alguma vergonha? A vergonha é ainda alguma responsabilidade que temos de não nos perdermos de nós mesmos. Não podemos nos dissociar de tudo. É fundamental algum limite para as nossas pulsões. Não podemos nos perder de uma certa ficção sobre nossos desejos. O desmedido é um buraco sem fim. É o laço que temos com nossos valores que nos impedirá de degringolarmos nesse sem fim do nosso prazer. Tenho que me situar nesse buraco. Tenho que enlaçar algo nesse gozo. Caso contrário, deixarei de existir como pessoa e não saberei mais diferenciar o que é viver e o que é morrer.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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