SOBRE O SEXO IDIOTA …

O sexo tem que ter algum sentido. Não podemos prescindir a cultura do nosso prazer. Não é possível pensar uma transa desacompanhada de alguma diretriz. Não podemos extrair nossa humanidade do nosso sexo. Não estou falando de uma forma pronta para o sexo. Não importa quem esteja envolvido. Não importa o local. Não importa a duração. Estou dizendo que não podemos eliminar nossa afetividade do nosso sexo. Não podemos fazer sexo como as pessoas que se fecham nas músicas de seus fones de ouvido quando estão andando pela rua. Como a humanidade aparece no nosso sexo? Ela se faz presença no olhar excitante que endereçamos ao outro. Ela pode ser vista no gosto que temos ao tocar – ainda quando nos tocamos solitariamente. Há uma meta a ser atingida. Palavras são ditas. Silêncios também. Há o reconhecimento da presença de alguém. Há afeto. Podemos fazer sexo dispensando tudo isso? Sim. Do mesmo modo que podemos comer sem nenhum afeto pela comida. Do mesmo modo que podemos comer sem reconhecer que estamos comendo: uma comida sem emoção e sem desejo. Uma comida sem vida: puramente biológica e toda da ordem da necessidade física. Uma comida toda reflexa. Contudo, não pode haver sexo sem a presença do outro – ainda que na imaginação. Só há sexo quando os olhos palpitam de desejo pela presença de alguém. Só há sexo quando nossos olhos brilham de afeto pelo nosso próprio sexo. O sexo com humanidade obriga a certos cuidados. É a humanidade que direciona o ato. É a humanidade que dá a intensidade do ato e exige que se preocupe em fazer o outro gostar. Há a presença do pensamento. Há o olhar que diz.
Qual é o problema do sexo no mundo virtual? Ele dispensa os corpos. Não há o olhar. Não há palavra. Não há o silêncio. Não há nada que dignifique o sexo. Não há o outro no sentido mais humano dessa palavra. Fiquei sabendo de um conversor de sinais que permite estimular partes do corpo por descarga que se conectam a um computador pessoal. É o sexo feito de ausência, sem o amor e sem afeição. Um sexo de olhar vazio. Um sexo reflexo. Um sexo completamente robotizado. Um sexo sem vida. Um sexo como o olhar de um adolescente depois de passar muitas horas olhando em seu celular. Um sexo como o olhar de um jovem completamente bêbado em uma festa open bar. Um sexo como o olhar de alguém como se estivesse olhando para o nada. Um sexo completamente desconectado de tudo e de todos. Um sexo idiota. Um sexo autista.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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