QUEM PODE GOZAR DIREITO NO BRASIL?

Quem pode gozar direito no Brasil? O Brasil continua sendo um lugar apenas para quem tem dinheiro.

Ainda não atingimos o patamar de uma alegria de viver para todos. Ainda estamos quase como bichos na luta pelo básico. Ainda estamos incertos quanto ao futuro e  inseguros se teremos dinheiro – amanhã – para o mercadinho da esquina.

A festa para nós ainda é um luxo. Sentimos culpa quando ostentamos – minimamente.

De um lado, temos aqueles que nunca precisam entrar em pânico. De outro, temos uma imensa massa completamente desamparada das necessidades básicas – e tendo que gozar a vida com o que tem e quando tem.

Nossa alegria é revoltada com o que veio antes e depois dela. Vivemos uma empolgação melancólica porque nossa euforia sempre acontece carregada de uma indefinição crônica se vamos ou não continuar eufóricos no dia seguinte. Pelo que sempre vem depois da festa, é certo que vamos continuar tristes.

Ainda habitamos um país que não tirou os seus do campo da biologia.

Ninguém goza direito sabendo que pode não ter emprego amanhã.

Nosso sexo é instintivo porque parece que ainda habitamos a selva. Não sabemos o que é  deitar calmamente para gozar. São muitos fantasmas que atravessam nosso prazer.

Não conseguimos concentrar para nada. Bebemos para fugir, rimos para não chorar e transamos para descarregar.

A sensação é a de que fomos jogados aqui – e sem qualquer laço. A sensação é de que ninguém sai do lugar na medida que as gerações se sucedem.

Sempre retornamos para o mesmo problema: garantir o nosso físico. Estamos há séculos parados no corpo. Vivemos de um espírito contaminado pelo medo de perder tudo a qualquer momento.

Estamos sempre inquietos na mesa do bar. Estamos sempre amedrontados na rua. Não sabemos o que é dor existencial. Nosso sofrimento é orgânico.

Ainda não fizemos a passagem da natureza para a cultura. Não sabemos o que é o mal-estar da civilização. Nossas queixas são de uma ordem bem mais primária.

Ainda somos escravos das nossas necessidades fisiológicas. Não sabemos o que é ganhar a vida pelo intelecto. Ainda dependemos de vender nossa força física para ter o mínimo. Ainda não colocamos em debate a nossa alegria de viver.

Nossa preocupação ainda é instintual. Será que um dia faremos a passagem do princípio da realidade para o princípio do prazer?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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