QUAL É O PROBLEMA DO RECALQUE?

Há o que sabemos e o que não sabemos. Recalcamos o que não sabemos, o que nos perturba, o que não gostamos, o que não queremos e o que não cremos como sendo nosso.

O que recalcamos é nosso – ainda que negado. Se recalcamos, é porque somos – e não admitimos. Se recalcamos, é porque desejamos – e não assumimos.

O que recalcamos é real: ninguém recalca o que não existe.

Todo saber é escolha consciente. Contudo, não somos só o que sabemos: desejamos – também – o que achamos que não sabemos. Desejamos – também – coisas nossas que tomamos como esquisitas. Desejamos o estranho. Precisamos falar do que – no fundo – também queremos.

Do que não falamos, retorna como contravontade nossa: retorna como ódio, agressão, angústia, ansiedade, stress, tensão, surto e morte. Temos que enfrentar o que abominamos. É por não falarmos, que essa coisa esquisita volta quando menos esperamos. Por isso, esboçamos aquela cara de paisagem. Somos culpados todas as vezes que o recalcado bate à nossa porta. Ele vem à tona – exatamente – porque não o deixamos suficientemente claro.

Tudo o que não é explicado, retorna em seu estado bruto. Tudo que não é nomeado volta como fantasma a perturbar nosso sossego. O estranho deixa de ser desejo quando tomado pela palavra.

Não podemos temer. Evitar já é um jeito de gozar ao contrário: é por isso que o recalcado retorna bizarro. No fundo, ele volta – exatamente – como o desejamos. Ou seja, como um absurdo.

Precisamos falar mais das nossas castrações. Temos que falar do que escondemos com a mesma tranquilidade com que lidamos com a nossa liberdade. Por que negar essa parte da verdade que é toda nossa?

É até justificável silenciar para o outro. O que não faz sentido é silenciar para si. O que não faz o menor sentido é não dividir consigo a sua própria dor.

Como alguém pode alimentar para si a sua própria hipocrisia? Como pode alguém se massacrar – uma vez que ninguém mais além de si vive em si? Como alguém pode falar do outro para dissimular seu próprio recalque?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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