QUEM SENTE SAUDADE NÃO AMA.

A saudade é a falta de alguém. Não. A saudade é a falta de mim que alguém deixou comigo.

A saudade não é do outro que partiu. A saudade é de si em sua incapacidade de se suprir.

Toda saudade é egoísta. Não sentimos saudade do outro. Sentimos saudade é de nós mesmos que não sabemos – e que o outro nos deixou saudoso. 

A saudade é de quem a sente. O outro pode ter ido embora exatamente porque não deu conta de suprimir essa saudade que falta em nós mesmos. Não enfrentamos essa saudade. Pelo contrário, a projetamos no outro como solução do que ignoramos em nós mesmos.

Saudade não é amar: a saudade é  um sintoma da ausência de amor próprio em quem ama. Precisamos escutar o que não temos para não ficarmos reféns de um amor  encobridor. Viveremos de saudade – se assim for. Isso não é saudade. Isso é tristeza de si.

Quem ama dá o que não tem. Os amantes se dão a saudade de si. Primeiro resolver a solidão – para depois amar. O outro não pode suplantar quem não somos – mesmo porque ele também pode não ser.

Só sabemos tomar amor como uma espécie de companhia para as nossas saudades. Isso tanto é verdade que viramos para o lado e dormimos quando estamos saudosamente satisfeitos.  Feito isso, precisaremos esperar a saudade de nós mesmos retornar para reiniciarmos o amor.

Ninguém deveria amar saudoso de si. Deveríamos trocar completude por completude e, não, falta por completude.

Não sabemos amar inteiros. Nossa cultura cunhou um amor de complemento. Só amaremos de fato quando enfrentarmos essa saudade que esperamos que o outro resolva por nós.

Não deveríamos procurar por saudade. A saudade deveria ser um momento para o enfrentamento de nós mesmos. Não deveríamos entrar em pânico quando deixamos de ser a saudade de alguém. Não deveríamos agredir quando o outro descobre uma saudade melhor que a nossa.

Na ausência do outro deveríamos aproveitar e roer o osso da nossa saudade até conseguirmos colocar nela algo exclusivamente nosso.

Não devo procurar porque não sou. Devo primeiro ser. Devo procurar para compartilhar quem sou – e não quem não sou.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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