NÃO POSSO ME PERDER DE MIM …

Tem que existir ao menos uma letra. Algo tem que ter ali. Pode ser um gesto. Pode ser um grito. Temos que fazer latejar alguma coisa nisso que não sabemos o que é. Temos que marcar algum sinal nesse estranhamento de nós mesmos. Temos que dar conta de escrever algo nesse negócio que sequer possui lugar para escrever. Não podemos habitar o vácuo. Temos que nos fazer existir. Algo tem que nos identificar. Caso contrário, faremos o impensado. Caso contrário, enlouqueceremos. Caso contrário, morreremos antes do tempo. Tenho que inventar algo que me tire desse lugar insuportável. Tenho que fazer existir algo que me faça dormir. Tenho que fazer brotar algum significado nas minhas perdas. Meu alcoolismo precisa ter um sentido. Tenho que inventar algo que funcione como um contraponto efetivo à minha dependência química. Caso contrário, serei vencido pelo pior. Qual palavra? Qual gesto? Qual grito? Qual movimento? Qualquer um que me contenha. Qualquer um que me salve. Qualquer um que diminua a minha culpa. Qualquer um que dê algum sentido para o meu descontrole. Qualquer um que me dê uma direção. Qualquer um que não me deixe morrer. Preciso saber de mim de alguma maneira. Não posso me perder de mim.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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