NADA DESATA O NÓ QUE TEMOS COM A MORTE

Viver possui um laço intransponível com a morte. Ninguém o desata. Impossível viver bem sem considerar esse nó cego. O dinheiro foge dele. A beleza o ignora. O poder desfaz dele. A educação o ilude. A ciência acha que o supera. A ARTE EXISTE PARA NOS FAZER LEMBRAR DELE. A arte vive desse laço. Tudo no mundo é covarde – menos a arte. Sem a arte a vida se torna uma mentira. A arte nos diz da possibilidade de enfrentar a morte com arte. A arte nos faz ir lá sem sair de cá. Gosto do humor que gargalha dos que ignoram suas feiúras. Vibro com o artista que escancara a ilusão do poder. Prefiro a arte que tripudia das tramas que ignoram a morte. Não gosto de ser enganado. Prefiro saber que ser surpreendido. O artista nos diz da possibilidade de fazer arte das nossas perturbações. Quais perturbações? Não somos imortais. Nossas belezas têm data de validade. Não teremos o que temos por muito tempo. O artista se pergunta sobre o que é possível fazer com o inevitável. Não creio na vida como uma contradição a ser resolvida: viver é experienciar opostos. É possível enodarmos com o nosso contraditório? Tem que ser possível. Não temos outro caminho. É melhor diluir ou retardar o trauma? A mentira protela o desespero. A arte nos ajuda a fazer um nó rindo ou contemplando do que a vida tem de mais trágico.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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