SOU EU OU SOU O OUTRO?

Somos seres de palavra. Qual é a minha palavra? Falo por mim? Ou me deixo falar pelos outros? Jamais saberei quem sou enquanto eu ficar como um papagaio repetindo o que querem que digo. 

Não preciso ter para mim a mesma língua que tenho para os outros. Devo inventar minha própria língua. Tenho que descobrir meus próprios códigos. Devo viver da minha própria loucura: essa é a minha felicidade.

Minha língua tem que ser única porque não sou um igual. Só saberei quem sou quando conseguir me escrever com a condição de que minha escrita nasça tatuada da minha carne. Tenho que me ler cravado no que pulsa em mim. Isso é único.

Não posso me descrever a partir de nada e nem de ninguém. Preciso que minhas escolhas primeiro passem pelo crivo do que está impresso em meu DNA. Meu dizer tem que ressoar do meu gozo.

Não sou um boneco de ventríloquo. Não devo dizer fora dos meus afetos. Não devo me trair.

Deliro quando falo pela boca dos outros.

A realidade não é só o que me é construído socialmente. A realidade – também – sou eu.

Cada pessoa deveria ter a sua própria língua. Não serei sendo  compreendido. Só sou – verdadeiramente – quando me compreendo.

Na verdade, não devo saber quem sou. Devo escrever quem sou. De preferência que eu me reduza ao mínimo possível de letras.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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