NÃO ADIANTAR ACUMULAR COISAS

Somos no fundo muito ingênuos. Fugimos da verdade. Fazemos poesias. Criamos filosofias. Entoamos cânticos. Avançamos em tecnologia. Tudo isto para tirar a consistência daquilo que mais tememos. Tudo isto para viver na base do faz de conta. Vamos ver até quando conseguiremos ficar colocando uma coisa no lugar de outra?! Vamos ver até quando daremos conta de desviar nossa atenção?! Pulamos para o lado de lá quando o medo aparece do lado de cá. Tudo o que fazemos é porque no fundo vivemos assombrados. Achamos que não sabemos. Queremos nos convencer de que sabemos. O saber nos acalenta. A ignorância nos dá pânico. Por que tem que ser assim? O que nos espera não está lá. O que nos espera está tão aqui que não paramos um minuto sequer para não ver. Precisamos preencher. Criamos artimanhas para não sermos atacados. Luta vã. Não adianta entupir. O vazio é infinito. Basta esperar o fim do efeito do Rivotril. O vazio não é o que vem depois. O vazio está entre. Está no buraco das letras. Está antes e depois da palavra. A verdade é o silêncio. A verdade é quando não há mais o que fazer. Enchemos o escuro de luz e dormimos com a televisão ligada. Não suportamos sair sem celular. Abominamos o outro lado. Estamos cada vez mais incomodados com a solidão. No entanto, o vazio é maior que tudo. É o que tudo move. É onde tudo começa e termina. É para onde tudo vai. Deveríamos ter mais aulas de silêncio. Aproveitaríamos melhor a vida se nos dissessem menos mentiras. Saborearíamos as coisas com mais desprendimento se partíssemos da nossa finitude. Levaríamos o mundo menos a sério se reconhecêssemos a única coisa que temos como certa. Viver seria bem mais leve se assumíssemos o quê de fato somos. Faríamos apenas por prazer se tomássemos consciência de que em algum momento tudo ficará para trás. Somos muito apegados à vida. Nossa vaidade excessiva é a fuga da certeza de que vamos partir um dia ou de que estamos partindo a cada minuto. Nossa mania de acumular  é sintomática do nosso temor de que não levaremos nada quando tivermos que despedir definitivamente da vida.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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