RELATO DE UM PSICOSSOMÁTICO …

As defesas que eu crio para me livrar dos meus medos ficam circulando pelo meu corpo. Sempre estou com alguma doença. Só não sou um fibromiálgico porque o sofrimento aparece um de cada vez. Fico semanas inteiras cerrando os dentes. Pratico bruxismo diurno. Quando lembro, me controlo. Quando distraio, me pego rangendo. Depois transfiro a perturbação dos dentes para a mandíbula. Sinto uma dor terrível nos ossos da boca. Dói quando eu falo, mastigo e rio. Em outra época é a minha coluna que empodrece. Mal consigo sentar. Para levantar é um tormento. E para dormir? Nossa! Me falta posição. Me entupo de relaxante muscular. Tem períodos que meus fantasmas resolvem perturbar meu sono. Passo noites e mais noites em claro. Mudo de lado. Deito de bruço. Nada acalma meu espírito. Penso em mil coisas ao mesmo tempo. Só as cinco milagrosas gotinhas de Rivotril para me salvar. Fora as coisinhas menores. Tenho mania de roer as unhas. Esfrego muito as mãos e tremo muito as pernas. Parece que meus medos estão saindo por todos os meus póros. Nada os contém. Não sei o que fazer com eles. Ainda quando estou fazendo o que gosto tem sempre uma pontinha deles lá. Estou sempre angustiado ou ansioso – ainda quando não estou fazendo nenhum sintoma. Sei que não tem jeito. Às vezes quase me dou por vencido. Contudo, ergo e revivo minha de esperança de aprender a lidar com eles. Sei que preciso arranjar um modo de não sofrer tanto. Talvez aprender a não enxergá-los como fantasmas.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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Um comentário sobre “RELATO DE UM PSICOSSOMÁTICO …

  1. Hércules Tolêdo Corrêa disse:

    Já tive vários desses sintomas… hoje, depois de uns quinze anos num único divã, e mais alguns anos saltando de um divã para o outro, além dos encontros comigo mesmo promovidos por outras situações, forjadas ou não por mim mesmo, já não sinto tanto o peso do mundo… dos rivotris e lexotans estou livre… mas o antidepressivo, todas as manhãs, ah, esse ainda vai me acompanhar por muitos anos… quiçá até o final dos meus dias aqui nesta terra de homens maus! 🙂 Bacana demais o seu texto, Evaristo! 🙂

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