SOBRE OS INDIVÍDUOS ATUAIS …

O problema da contemporaneidade é que o sofrimento situa-se no terreno da impossibilidade de dizer, de contar e de nomear. Parecemos soldados que acabaram de chegar de uma guerra. Parece que estamos sob o efeito de algo brutal e de uma incapacidade absurda de criar e elaborar a própria dor. Parece que estamos  psiquicamente destruídos e tomados por algo semelhante à lesões cerebrais, afasias e demências. Parecemos zumbis ou mortos-vivos. Viramos seres que agem na base do automatismo. Somos incapazes de recontar a história da nossa própria tragédia. Parecemos seres que perderam a alma e cujo sofrimento surge em meio a mutismos e a fenômenos psicossomáticos. Nossa forma de vida é sentida como bizarra, animal e petrificada. Ao contrário dos que conseguem escrever seu sofrimento em uma fala, somos aqueles que parecem viver em estado de permanente fracasso em dar nome à causa de nossas dores. Sentimo-nos o tempo todo fora de lugar, fora de tempo ou fora do corpo. Este é o dilema daqueles que vivem experiências de extrema ausência de normas, cujo o exemplo literário mais signifitivo seria Frankenstein.  Viramos, antes de tudo, perdidos da palavra e melancólicos do desejo. Existe saída? Sim. Precisamos de identificações e de situar nossas dores em formas narrativas mais ou menos socializadas. Nossas experiências de sofrimento precisam ser incluídas em discursos constituídos. O enganchamento da dor em algo – minimamente – sensato permite que ela seja reconhecida e tratada. Todos os sofrimentos que não se enquadram nos discursos estabelecidos, são frequentemente tidos como desprovidos de suas verdades, como uma palavra encurralada no nada. Hoje parece haver um movimento no qual os psicanalistas pensam em como facilitar que certos pacientes se tornem capazes de narrar suas experiências de dor. Hoje se pensa em como fazer diagnósticos envolvendo formas múltiplas de sofrimento e como lidar com queixas cuja nomeação é precária, incerta ou improvável. Nós psicanalistas estão tentando lidar com sofrimentos que escapam a lógica  do reconhecimento. Todo processo de mudança envolve sofrer e amar. A psicanálise acredita que no centro de qualquer experiência de dor existe um núcleo de vazio e de verdade que envolve  alguma forma de vida.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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