Cremos em uma regularidade que não existe …

Temos duas identidades: a nossa identidade psicológica direta e a nossa identidade simbólica. A primeira, é a que não queremos ver. É a que nos atormenta. É a que nos tira do prumo. É a que não sabemos o que fazer com ela. A segunda, é a que nos alimenta com a ilusão de que a vida pode ser bela, equilibrada e feliz. Tamponamos a primeira. Fugimos dela como o diabo foge da cruz. É o que acontece em algumas sociedades onde existem mulheres que são contratadas para chorar nos funerais. É o que acontece nas rodas de oração do Tibet: eu prendo na roda um pedaço de papel em que a prece está escrita, deixo que o vento ou a água a girem, e a roda está rezando por mim. Nosso problema é a fantasia de completude que alimentamos em nós mesmos. Nos iludimos que podemos controlar tudo. Não sabemos lidar com aquilo que foge à nossa rotina. Queremos tudo muito completinho. Caso contrário, nos sentimos ameaçados. A saída mais imediata é tentar equacionar a diferença. No fundo, não sabemos o que fazer é com a diferença que negamos em nós mesmos. Cremos em uma regularidade que não existe. A questão é quando esta diferença reside em pequenas coisas. É quando estamos dispostos a aceitar o negro, a mulher, o gay, contudo, há algum detalhe que não deixa de nos incomodar: a cor da pele, a sensibilidade e o jeito de lidar com o próprio desejo. Por que estes detalhes nos incomodam tanto? Por que reagimos com tanta agressividade? Porque tais insignificâncias – no fundo – nos remetem para outras questões muito mais insuportáveis. Podemos nos livrar dos preconceitos e da raiva? Sim, quando entendermos a vida como uma contradição insuperável. Quando entendermos a vida como pares indefinidos de opostos. Quando dermos conta de olhar para as diferenças com um pouco mais de poesia e de bom humor.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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