Sobre o poder …

Você não gosta e tem que aturar. Você é obrigado a parecer agradável. Você não pode dizer NÃO. É quando o outro está te fazendo mal e acha que está te fazendo bem. É quando ele pensa que não é possível que você não esteja feliz. É quando nada do outro te motiva. Quando você tem que fazer bem feito sem o menor tesão. Quando as pessoas têm que parecer alegres estando profundamente tristes. Quando você não consegue colocar nada do outro em um patamar mínimo do que seja prazeroso para você. Assim são as relações de poder – hoje. O mundo é dividido em ” eu tenho poder” – “você não tem poder”. Eu mando e você obedece. Avançamos pouco na equidade das relações. Você tem que ficar feliz servindo a felicidade alheia. Quem não tem poder sabe que para qualquer lado que for terá que se submeter. Quem não tem poder estará sempre na condição de desemponderado. A não ser que um milagre aconteça. Talvez isto explique a ânsia das pessoas em comprar uma casa no campo para plantar e colher a pimenta e o sal. Creio que o maior desejo dos subjugados é sair o mais rápido possível dessa condição perversa. Nossa cultura de poder é doentia e narcisista. É quase como se o poder quisesse toda a felicidade somente para si. Não é o poder que você deseja – mas – é o máximo de poder que eu posso te oferecer. Contente-se com ele. Não vai te levar muito longe e não há nada que você possa fazer. O pior é que sabemos do excesso de poder que o outro extrai às nossas custas. Essa estrutura do “eu tenho poder” e “você não tem poder”, nos joga o tempo todo em uma angústia infernal. Quantos não surtam?! Quantos não adoecem? Quanto não ficam violentos?! Quantos não se drogam?! Quantos não estão deprimidos?! Quantos não estão em pânico?! Passamos a maior parte do tempo submetidos a esse poder – e sempre temos que retornar a ele por uma questão de sobrevivência. O que fazer? Só nos resta gozar das brechas que ele deixa para trás. Sempre que possível devemos usufruir de seus cochilos. É pouco – mas – já é alguma coisa. É tudo muito perverso. É tudo muito hipócrita. É tudo muito cínico. É o jeito que encontramos de forçar o poder a compartilhar um pouco de seu sadismo. Acabamos encontrando algum jeito de roubar algum poder do poder. Parece que aprendemos a lição. Não deixa de ser uma forma de resistência. Não deixa de ser uma transgressão. Ainda bem que ninguém é o tempo todo onipresente…

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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