Sem a presença de alguém a vida não tem o menor sentido …

Que nada interfira em nossas vidas! Viva a liberdade individual! Que cada um tenha total autonomia  sobre si mesmo! São estas as bandeiras da nossa sociedade liberal. A ideia é universalizar o pressuposto do indivíduo como um fim em si mesmo: dou conta da minha vida sozinho. Contudo, não nos bastamos. Sem a presença do outro o viver não tem o menor sentido. O individualismo execrou os encontros sociais. As pessoas não procuram as outras. As pessoas se procuram nas outras. Procuram espelhos. Quanto mais artifício mais holofote. E quanto ao envelhecimento? A ideia é transformar o corpo em peças de reposição. O mundo será eternamente jovem? Será? Então por que tantos jovens estão se autodestruindo? Por que tanta gente com depressão? Por que tantos surtos? Por que tanto suicídio? Porque sabemos que não somos eternos. Porque não controlamos o amanhã. Porque tememos a solidão. Porque abominamos a morte. Vivemos uma falsa felicidade pela estética. A verdade bem sabemos qual é. A verdade nenhuma beleza sutura. O afeto é o melhor antídoto contra a dor de existir. Sempre vivemos no formato do duplo. A sociedade de consumo pensa que recalcou de nós esse nosso Outro estranho. Ele aparece nos olhares vazios em torno da mesa de bar e na angústia dos jovens completamente bêbados em festas privadas e públicas. Aparece na violência fortuita. Esse nosso outro desesperador só pode ser acessado na convivência com alguém que nos possibilita ser quem somos com todas as nossas verdades. Nos conhecemos através do outro que nos permite criar uma intimidade com o que não queremos em nós. Temos que dar conta de amar a velhice e a morte. Temos que dar conta de amar as feiuras da vida. Temos que dar conta – para ontem – do que seremos no futuro. Isto dispensa qualquer artifício de imagem. Podemos e devemos ter. Não podemos esquecer de ser. Este outro de nós mesmos – se negado – avança impulsivamente sobre nós. Não há beleza que o sustente. Ele é o jovem solitário por detrás de seus músculos, de suas roupas de marca e de seus dispositivos tecnológicos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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