O amanhã – em tese – não existe

Lacan considera o suicídio o mais bem-sucedido de todos os atos. Esta afirmação – apesar de estranha – faz algum sentido. Nosso psicanalista quer criticar a ideia de repetição. O suicídio é um ato que termina nele mesmo. Não há mais o depois. Ninguém se mata duas vezes. É óbvio que Lacan foi ao extremo para definir o que é a vida. A vida deveria ser um suicídio permanente. Cada ato uma passagem ao novo. Cada minuto um corte entre um antes e um depois. Nada de repetição. Deveríamos fazer tudo como se fosse a última vez. Afinal, alguém tem certeza de que estará vivo para fazer mais tarde? Cada ato deveria terminar nele mesmo. Precisamos fazer de cada respiração um instante único. Temos um corpo que sente. Temos variadas situações. Nenhuma deveria ser igual. A cada momento uma emoção nova. O corpo nos convida a viver. O pensamento nos convida a morrer. O pensamento nos conduz a enxergar sempre a partir das mesmas definições. Podemos ignorar a originalidade de cada instante e viver tudo como sendo o mesmo. Isto não é viver. Temos que ir nos matando cada etapa para que a seguinte nos surpreenda. Para tanto, temos que abraçar com toda intensidade cada minuto como sendo único. Devo gozar tudo o que posso de cada ato. Ao findar meu deleite, devo atentar para a próxima sensação a ser explorada. E assim por diante. A vida é o que posso sentir do que possuo. Liquidamos as experiências quando as vivenciamos com suas respectivas emoções. Posso pensar do mesmo jeito. Não posso sentir igual. Não controlo o que sinto. Só conheço a extensão das minhas emoções quando as vivencio. Meus sentimentos são a minha verdade. Não deveria caber nenhum pensamento nas minhas emoções. A vida é sentir. A vida é o que nos faz tremer. É o que nos faz gemer. É que nos faz gritar de alegria. É o que nos arrepia. Só vivemos – de fato – quando sentimos. Repetimos quando pensamos. Não é o pensamento que deveria vir primeiro. Se nos permitíssemos viver de sentir mudaríamos nosso modo de pensar a cada minuto. Nada mais chato que um ser pensante. Nada mais entediante que a rotina. Nada mais excitante que os sentimentos …

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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