Quando amar é uma doença …

Na psicanálise o analisando não pode amar o seu analista. O amor pelo analista é um sintoma a ser superado. É uma resistência do analisando a si mesmo. Na análise o amor pelo analista funciona como um ponto de fuga. O amor não nos livra de sofrer. Nada nos livra de sofrer. Ninguém nos livra de sofrer. Cremos no amor como condição de felicidade. Ledo engano! O que amar no outro senão seu poder de suprir o que nos falta? O que amar no outro senão o amor que não temos por nós mesmos? Quanto utilitarismo?! Quanto egoísmo?! O que é o amor – afinal? Muitos amam buscando no outro um amuleto. Temos que amar o outro em sua alteridade. Amar o outro em nossa solidão. Amar o jeito como ele lida com a sua solidão. Amar a forma como ele se arranja para tentar ser feliz. Amar sua singularidade. Amar seu testemunho. Amar seus arranjos e invenções. Amar sua forma de reinventar a vida. Não há amor maior quando permitimos ao outro crescer em sua dor. Quando não fazemos por ele. Quando estamos certos de que ele tem que dar conta de si. Quando estamos seguros de que ele não tem outra alternativa. Amamos o outro e não nossa megalomania de ser para ele o que sequer sabemos para nós mesmos. Não podemos amar no outro o que não somos. O amor só será verdadeiro quando dermos conta da nossa infinita solidão. A dor de viver é de cada um …

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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