Você tem prazer em viver?

Viver exige sacrifício e esforço. Temos que respirar. Abrir e fechar os olhos. Levantar, sentar, agachar e deitar. Temos que falar e articular bem. Toleramos frio e calor. Claro e escuro. Fome e empaturramento. Dores e doenças. Velhice. Medos. Frustracões e desamores. Porém, em certos momentos, é uma delicia dormir. Nada melhor que olhos bem abertos em Paris. É enriquecedora uma conversa inteligente. Dependendo do lugar, um friozinho ou um calorão cai muito bem. Há quem use a doença em benefício próprio. A vida é boa. A questão é quando a vida não é boa. Quando abrir os olhos é uma tormenta. Quando dá vontade de nunca sair do quarto. Quando tudo é irritante. O que fazer quando o desprazer de viver é maior que o prazer de viver? Esta é a grande questão – creio – que as pessoas se colocam o tempo todo. Vivemos compensando o desprazer com o prazer. Sofremos no trabalho para gozar as férias. Compartimentamos a vida em onze meses de tristeza e um mês de alegria. Cinco dias de tortura e dois de deleite. Gostaríamos que a vida fosse um eterno final de semana. Gostaríamos que aquela viagem não terminasse nunca. Primeiro sofremos muito para depois gozar um tiquinho. Como fazer para gozar o tempo todo? É possível nos arranjarmos com o desprazer? Sim. Temos que nos dar conta que o tempo que estamos perdendo -sofrendo – não voltará jamais. Na verdade, sofremos porque criamos ilusões de que sempre é possível viver outras vidas. O que nos faz sofrer não é o que somos e, sim, o que não somos. Nunca gostei das  ideias de salvação, superação e reconfiguração. A vida é o que está sob meu poder. Em tese, não existe o depois. Meu tempo é agora. Não tenho que desfazer do que sou em detrimento de algo que não saberei se serei. O infeliz é um covarde de seu agora. A esperança é válida desde que não seja levada tão a sério. Nunca compare. Viva tudo intensamente e vá abrindo ciclos únicos. No fundo nenhum segundo é igual. Só será se o quisermos. Tudo na vida é sempre original porque nada é previsível. Se observarmos atentamente veremos que nenhum dia é igual. O problema é quando nos recusamos a ver. Temos que ser artistas para  criar sobre a tragédia. A vida não é um problema. Nós é que somos problemáticos a espera de um milagre.  Esquecemos o poder que temos de criar nosso próprio tempo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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