ESPOSA NÃO É MÃE. MARIDO NÃO É MÃE.

Não teríamos sobrevivido se um outro não tivesse estabelecido conosco uma relação que a psicanálise chama de dual. Nascemos – completamente – desamparados. Talvez – por isto mesmo – crescemos acreditando que a presença de alguém em nossas vidas seria condição de possibilidade para a nossa realização pessoal. Algumas pessoas transpõem esse alguém por compulsão por compras ou por drogas. No entanto, muitas pessoas – que não superaram aquela relação dual da infância – acabam desenvolvendo a chamada compulsão por pessoas. Os apaixonados acreditam reeditar na vida adulta a relação dual que tinham com a mãe quando crianças. Ocorre, que nunca mais encontraremos nossa mamãezinha da infância. Temos que tomar muito cuidado com o que chamamos de amor. Não podemos projetar em nossos amantes aquele amor materno incondicional que ficou para trás. O outro pelo qual esperamos tudo pode não estar buscando em nós essa mesma demanda. Não existe o outro inteiro que tanto procuramos: ele é também faltoso. O amor pode não ser a felicidade que estamos procurando: ninguém vai resolver esse nosso problema. Quando apaixonamos – no fundo – estamos doentes desse nosso vazio. Se não é o outro, qual a saída para esse nosso desespero existencial? Nós mesmos. Somos a nossa própria cura. Temos que nos arranjar com a mãe que se foi. Não adianta entrar em pânico. Seremos eternamente incompletos. Apaixonamos e logo o que o buscamos nos é negado. As diferenças aparecem. O outro se dá conta que não somos a mamãezinha que ele esperava que fôssemos. Sobramos. Sempre sobraremos. Sempre seremos jogados para nós mesmos. Ou aprendemos a lidar com a nossa solidão ou seremos – o tempo todo  – lançados nesse vácuo existencial até aprendermos a nos arranjar com ele. Ele não é de ninguém. Ele não é nosso – não no sentido de que podemos nos livrar dele: nos o temos, e cada um de nós precisa decidir o que fazer com ele. 

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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