Sobre o ATOR …

Surpreendi com a entrevista de uma atriz famosa dizendo que o ator vive outras vidas. Em outras palavras, que o ator interpreta. Disse também que o texto é a essência de qualquer trabalho de atuação. Não acredito que o ator interpreta. Também duvido que o teatro seja feito de texto. A Psicanálise não acredita em interpretação e nem em texto. Aliás, o Psicanalista abomina qualquer tipo de saber referente. Não há texto. Há a vida crua. Há o sujeito com seus arranjos sintomáticos. O Psicanalista não escuta o texto do analisando e nem a tentativa deste de seduzi-lo com seus dramas histéricos. Todo texto e toda interpretação – teatral ou não – visa camuflar a vida no que ela tem de mais trágico. O bom ator é aquele que deleta o texto e essa história de interpretação. Aliás, o texto – em si – mata o ator. Quem interpreta não atua – e sim – histericiza o teatro. O ator histérico imagina a cena e se inspira no cotidiano – o que acontece nessa história de fazer laboratório – reproduzindo gestos e falas. Algo bem semelhante às histéricas que nos procuram com suas caras e bocas. Um ator de verdade vive a cena em toda a sua materialidade. Um ator completo não atua no plano do sentido. Não há mais texto e nem interpretação. Há o real. Há o osso da vida. Não há outras vidas, por favor! Há o ator e a vida no sentido do real lacaniano – que é igual pra todo mundo. Há a rigidez teatral – completamente fora do sentido. O trabalho do ator começa onde termina o texto e a interpretação. Um bom ator precisa fazer a travessia do texto e da interpretação. Um bom ator atua consigo mesmo. Um bom ator atua por todos os humanos. Um bom ator vive no palco o que nos falta coragem para viver na vida. Teatro não é exercício mental. Não é decoreba e marcação de cena. Atua-se com os dentes e as unhas. O bom ator rói o osso da vida no palco. Já não se trata de texto e nem de outras vidas. Trata-se de atuação quase no sentido psicótico desta expressão. Trata-se do ator roendo sua própria vida enquanto atua. O teatro é o que o psicanalista escuta – com a diferença que chega um momento em que as cortinas fecham e o ator volta para a sua vidinha de texto e de interpretação. Todo Psicanalista antes de escutar necessita – de antemão – escutar a si mesmo em seu osso. Pobre do ator que nunca se deparou com sua caveira. O ator não interpreta texto algum. O texto é ele – em carne viva. Não existe texto fora de mim. Só existe um texto: o meu real. A cura psicanalítica ocorre – exatamente – quando o texto se esvai e o sujeito agarra sua caveira. Não deixamos nossa des-humanidade fora do palco da vida.  Temos que nos arranjar com ela. O teatro é uma excelente forma que o ator encontra para se arranjar com a sua des-humanidade. Tenho amigos atores que fazem isto com uma maestria extraordinária.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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2 comentários sobre “Sobre o ATOR …

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