Tenho que ser a melhor companhia para mim mesmo .

Sou corpo e pensamento. Meu corpo é o que tenho. É o meu aqui e o meu agora. É o que posso contar. Meu corpo são meus olhos, boca, ouvidos e nariz. Tenho braços, mãos, pernas e pés. Amo e odeio. Oscilo entre a alegria e a tristeza. Gosto de algumas coisas e de outras nem tanto. Meu corpo é minha casa, meu quarto e minha cama. É meu trabalho e meus amigos. Meu corpo são os filmes, peças e shows que gosto de ver. É minha família e as pessoas que conheço. Meu corpo me satisfaz? Nunca. Contudo, tenho que me virar com ele. É o que sou. Não posso perder tempo com a única e limitada felicidade que tenho. Não tenho como grudar outras felicidades em mim. A felicidade que espero – além de mim – depende de uma série de circunstâncias que não posso controlar. Não posso condicionar minha felicidade à felicidade de outrem. Não posso acoplar ninguém a mim. A felicidade para além de mim depende das outras vontades. O outro é livre para querer-me ou não. Penso para tentar resolver a alegria de viver que me falta. Penso quando não me satisfaço. O pensamento baixa a minha estima. O pensamento me tira de mim. O pensamento foca no que não possuo. Penso para me mortificar. Pensar me transporta para um mundo que não é meu e desfaz do mundo que – de fato – tenho. O pensamento me tira do meu corpo. Tenho que tentar resolver o que me falta com o que possuo. Preciso ser feliz com o que tenho em mãos. Não posso querer viver uma vida que não detenho. O pensamento alimenta minhas ilusões. Posso até querer outras coisas. Contudo – enquanto nada muda – devo ser feliz com o que está sob meu domínio. Não posso perder tempo esperando. E se a mudança não chegar? Por isso, não tenho muitas escolhas. Devo gostar de mim e do que tenho. Preciso – urgentemente – amar meus olhos, boca, ouvidos, nariz, mãos, pés, braços, barriga, altura e bunda. Não posso desfazer do meu jeito de andar, vestir, sentir e gostar. Preciso dar conta de ser feliz com a família, amigos e pessoas com as quais convivo. Preciso amar mais minha casa, meu quarto e meu trabalho. Jamais serei feliz – um dia – estando infeliz agora. O que sou, sinto e faço é o que tenho. Preciso parar de pensar em outros mundos. Preciso viver mais quem sou!

Evaristo Magalhães – Psicanalista.

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