Não SOU mais PROFESSOR!!!

Há tempos que deixei de ser professor. Comecei muito cedo a duvidar do poder das palavras. Comecei estranhando a relação do meu próprio nome comigo mesmo. Nunca acreditei que alguém pudesse deter um saber definitivo sobre qualquer coisa. O que é o saber? Será que sabemos? Sabemos o quê? Há um mundo muito maior depois do sentido das palavras. O saber é outra construção paralela à realidade. Tenho pavor de quem toma qualquer teorias como se fosse uma fotografia do real. Nunca fui um professor que professa. Todo professor que professa é um enganador. Penso que sou – na pior das hipóteses – um provocador de questões. Tento  usar as palavras muito mais como um veículo das minhas duvidas que como um veículo das minhas certezas. Quero chegar onde não há palavras. Vejo as certezas mais como relatos que como verdades. Não podemos esquecer da humanidade por detrás das obras de todos os nossos grandes pensadores. Ninguém sabe como chegou aqui e nem para onde vai. Ninguém sabe por quais motivos envelheceremos e morreremos. Não podemos tomar nada e nem ninguém como modelo – porque somos iguais em nossas dúvidas mais cruéis. Perdemos nossa capacidade de criar quando tamponamos nossos questionamentos com supostas crenças. Não posso responder por ninguém – mesmo porque sequer sei para mim mesmo. Não quero cobrir nada. Muito pelo contrário, quero é apontar para os enigmas. Quero desmascarar as doutrinas e indicar o vazio. Não quero ensinar. Quero des-ensinar. Quero mostrar as inconsistências. Prefiro crer que tudo o que achamos que sabemos é – no fundo – um grande engôdo. Quero lançar meus alunos no vácuo das suas existências para que construam algo bem particular de si mesmos nesse mergulho. Minha função não é acalentar, e sim, angustiar. Sei que nada sei e sei – também – que ninguém sabe. Estamos todos nesse mesmo barco furado. Quero cumplicidade. Quero ajuda. Quero compartilhar meus dramas para ver se encontro experiências novas. Quero teorias que possam me ajudar – de alguma forma – a entender melhor os meus mistérios mais cruciais. Não quero certezas: quero dúvidas. Tenho questionado se a saída é pelo pensar. Temos pensamentos de sobra. Estou tentando encontrar uma alternativa para além desse blá blá blá que existe. Não me iludo com teorias pretensiosas. Quero é escutar o que as pessoas estão inventando sobre seus dramas. Tenho minhas próprias invenções. Quero trocar: é isto o que me motiva a entrar – todos os dias – em uma sala de aula.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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