É possível viver só de prazer?

Pense em você saboreando um delicioso chocolate. Depois ganhando um beijo macio e ardente. Em seguida, se banhando em águas quentes e relaxantes. Imagina se fosse possível catalogar todos os prazeres e viver somente deles. Imagina uma vida sem nenhuma preocupação, dor ou angústia. Imagina se o bom nunca durasse pouco. Imagina se pudéssemos viver de um prazer a outro. Imagina se após vários orgasmos pudéssemos viajar para Paris e velejar nas águas cristalinas das ilhas caribenhas. Por que o prazer não dura para sempre? Por que a felicidade é fão fulgás? Por que as festas acabam? Deveríamos poder tomar vinho sem embebedarmos. O orgasmo não deveria durar apenas alguns segundos. Por que doce em excesso faz mal? Por que cansamos? Por que enfaramos? Por que temos que acordar cedo? Por que o prazer não é infinito? Afinal, o que fizemos? Do que estamos sendo castigados? Qual é minha culpa, minha tão grande culpa? Por que tudo possui data de validade? Por que ficamos tristes? Por que não somos eternos? Sei do beijo que gosto. Tenho meus abraços preferidos. Sei o que gosto de comer. Tenho meus lugares prediletos. Gosto de jazz e de pessoas espontâneas. Adoro teatro, cinema e literatura. Por que não posso viver – exclusivamente – do que me dá prazer? Não tenho nenhuma dívida a ser paga e nenhum pecado a ser redimido. Contudo, sei que não existe resposta para este meu dilema. Decidi – então – não sofrer mais por isso. Me rendo ao inevitável. Não posso querer o impossível da vida. A festa sempre termina. O telefone desliga. O outro é livre para não voltar. Já sei que não existe final  feliz. É seguro que todo prazer cessará. É seguro – também – que posso  inventar novos prazeres. Quero tentar me tornar – a partir de hoje – um exímio criador de prazeres.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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Um comentário sobre “É possível viver só de prazer?

  1. Andreia Cristina Custodio disse:

    Estimado professor, se o que nos faz sofrer é a tensão pelo desprazer, em contrapartida, acredito que “não ter desprazer e preocupações” poderia nos levar ao tédio crônico! Santo Deus! Como eu poderia refestelar-me na alegria de fazer o que gosto – e sentir prazer – se eu não conhecesse a dor, a raiva, o medo e tantos outros sentimentos causados pelo que não me agrada? Risos! Será que eu sou louca, Evaristo?!

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