AMIGO não é ANALISTA …

Quando estamos emocionalmente fragilizados sempre procuramos um amigo para desabafar. Nossa expectativa é a de sermos acolhidos e protegidos. Relatamos nossas dores e esperamos que ele nos dê razão em nossas queixas. Queremos sair dali convencidos de que não temos nenhuma culpa em nossos desatinos. Isto é o que  todo mundo espera de seus melhores  amigos.

Ninguém – por uma questão moral – fala de seus recalques – ainda que seja para o melhor amigo do mundo. O recalque é quem somos onde mais envergonhamos. É quem somos onde mais tememos. É quem somos onde não gostaríamos de ser.

Se disséssemos quem somos – de verdade – todo mundo sairia correndo.

O amigo é aquele que compadece da nossa dor – exatamente – para não saber quem – de fato – somos.

O amigo – para não correr o risco de perder a nossa amizade – só fala o que queremos ouvir e não o que deveríamos ouvir.

Todo amigo – porque é amigo – é sempre parcial.

Com o analista as coisas não são bem assim. Por não ser amigo de seus pacientes, o analista pode escutar com total neutralidade.

O amigo nunca acha que somos culpados – a não ser que estejamos dispostos a assumir nossa parcela responsabilidade em nossas desavenças.

Só há análise quando há culpa. A culpa é quando apareceu o que é de cada – e que deveria ter permanecido escondido.

Todos que procuram um divã sabem – ainda que inconsciente – que possuem alguma culpa em suas queixas.

Os analistas não poupam ninguém desta verdade.

Tomar o sofrimento para si é condição de possibilidade para o sucesso de qualquer análise. Isto talvez explique porque as pessoas preferem os amigos aos analistas.

Todo mundo que procura um psicanalista possui uma cota de sofrimento que não quer se a ver com ela. Preferimos colocar a culpa no outro. Preferimos nos  vítimizar: é mais cômodo e menos doloroso.

Toda amigo  – no lugar de ficar alimentando a condição de vítima do amigo – deveria usar de sinceridade e sugerir à ele que procure a ajuda de um profissional. Quem sabe assim ele possa ser capaz de vivenciar relações menos dependentes e mais maduras – depois de ter dado conta de ser mais verdadeiro consigo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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