QUANTO MAIS SABEDORIA, MAIS SOFRIMENTO.

O senso crítico existe – quase sempre – para apontar erros. Criticamos porque discordamos. Criticamos porque analisamos a sociedade a partir de certos valores. Criticamos porque queremos um mundo menos desigual.

Todo conhecimento parte da tentativa de explicar um fenômeno qualquer. Contudo, há um conhecimento que visa clarear e apontar saídas para o problema das diferenças sociais. Este é o mais doloroso de todos os saberes  – talvez – porque é o mais humano de todos.

A questão das relações de poder – em uma sociedade desigual como a nossa – é a mais difícil de ser compreendida e a que mais incomoda. O nó é que só conseguimos acessá-la apenas pela via intelectual. Não conseguimos quantificar – com precisão – as desigualdades. Há gradações: há os menos e os mais desiguais e os menos e os mais indignados. Além disso, compreender o fenômeno da fome – por exemplo – implica discutir todo o processo de formação da sociedade capitalista. Fora que não há exatidão, uma vez que só conseguimos responder – de forma abstrata – aos motivos que levaram um pequeno grupo a tomar para si quase toda a riqueza do planeta.

A crítica social é sempre mais qualitativa que quantitativa. Quem se interessa por esse conhecimento sabe de sua importância e de sua complexidade. Sabe que – de todos – este é o mais necessário e o mais difícil de ser transmitido.

Não é tarefa fácil entender as mazelas sociais. Não é tarefa fácil mobilizar multidões para contestar as contradições – o que não significa que não vamos continuar tentando. Não há quem não fique indignado quando se estabelece uma relação de causalidade entre as injustiças sociais e os princípios éticos de igualdade universal.

Sabemos de todos os desafios que este tipo de questionamento traz. Contudo, insistimos na busca de um mundo melhor. Pensar as diferenças sociais é, sem dúvida, o mais doloroso de todos os conhecimentos porque não é visível, não é constante e nem regular – como uma fórmula química. Exige sensibilidade e espírito de justiça.

Impossível estudar ciências sociais e não se indignar. É um saber que nos implica – o tempo todo – em uma tomada de posição. Não tenho dúvida de que é a este conhecimento que a Bíblia se refere quando diz: quanto mais sabedoria, mais sofrimento.

Evaristo Magalhães – Psicanalista.

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