Por que nossos jovens estão surtando?

Quanto ao comportamento das pessoas –  não há exatidão. Disso já sabemos. Por isso, ele é dado a diferentes olhares. Uma certa psicologia de jornaleiro resolveu adentrar no campo da terapia familiar. Ainda hoje – esta mesma psicologia  – berra aos quatro cantos que os pais devem ser amiguinhos de seus filhos  e que devem manter – com estes –  uma relação de muito cuidado. Por isso, os pais estão impedindo seus filhos de aprenderem sozinhos. Outro dia, li uma notícia de uma Faculdade em São Paulo que está fazendo reunião de pais. Li também sobre uma mãe que leva e busca a filha de vinte anos todos os dias na universidade. É impossível traçar um perfil exato de como os pais devem lidar com os filhos. Ocorre que os pais estão se equivocando. Há uma confusão generalizada entre amar e superproteger. Os pais estão esquecendo da diferença entre a afetividade familiar e afetividade social. A vida profissional tem se tornado cada vez mais competitiva. Nossos jovens estão despreparados para as situações de conflito. Estão transpondo a proteção famíliar para a proteção social. Querem transpor o mesmo amor de seus pais para o ambiente escolar, profissional e conjugal. Estão desprovidos de recursos para lidar com a realidade. Estão surtando. Estão perdendo as ferramentas básicas para conduzirem as situações cotidianas mais corriqueiras. Precisamos levar a realidade para dentro do ambiente familiar. A vida social é bem mais dura. É preciso muito jogo de cintura para ser bem sucedido. Não podemos prometer um mundo fictício para nossos jovens. Não podemos confundir a ilusão do fácil acesso aos bens de consumo com maturidade psicológica. Precisamos apresentar aos nossos filhos a vida como ela é. Não podemos passar a ideia de futuro garantido. Grande parte da vida boa não pode ser adquirida financeiramente. Perdas e conflitos exigem uma certa estruturação psicológica. Por que dificultar se podemos facilitar? Esse dito popular é muito arriscado. Nem todo mundo está disposto a facilitar. Amar não é a ausência de exposição à dor. Aprender a viver é diferente de ter alguém que faça por nós. Estamos esquizofrenizando nossos jovens.  Ninguém pode amar em nosso lugar. Tem coisa que é de cada um. É o único modo de nos sentirmos gente. Fora isto, não faz nenhuma diferença entre estar dentro ou fora da realidade. Fora isto, a vida perde todo o seu sentido e tudo pode acontecer.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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3 comentários sobre “Por que nossos jovens estão surtando?

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