Era uma vez uma família, um trabalho e uma nação…

Era uma vez uma família. A palavra era sagrada. Era a experiência fundante de toda a vida em sociedade. Toda rebeldia tinha um fim maior. Nada era um fim em si mesmo. Houve um tempo em que a família deixou de ser referência. Pais e filhos deixaram de se enconntrar. As refeicões foram substituídas por fast food. Uma televisão para cada filho. Notícias de filhos assassinando pais e de jovens envolvidos em atos de violência, tornaram-se banais. Era uma vez uma profissão ou um ofício. O trabalho era parte da identidade dos indivíduos. Dava para trabalhar e sonhar. Houve um tempo em que o trabalho foi suplantado pelo emprego. O trabalhador perdeu a autonomia sobre seu ofício. O mercado passou a decidir as profissões. Profissões apareciam e desapareciam da noite para o dia. Um trabalhador podia ser, ao mesmo tempo, engenheiro, chefe de cozinha e cavaquinista de um grupo de pagode. Era uma vez uma Nação com uma fronteira, uma língua, uma cultura e uma economia, definidas. Havia um sentimento comum de pertencimento a um mesmo povo. As raízes eram valorizadas. A pátria tinha uma identidade única. Houve um tempo em que destruíram o sentido da palavra “Pátria”. Os indivíduos perderam suas raízes e tornaram-se cidadãos do mundo. O cidadão deu lugar ao turista. A diversidade cedeu à padronização. Muitas guerras de resistência ocorreram. Houve um tempo em que todos os habitantes do planeta não sabiam mais responder quem eram. A harmonia cedeu lugar ao caos. A segurança ao medo. O homem perdeu seu chão. Uma névoa estranha e escura passou a cobrir o futuro.

 

Anúncios

Um comentário sobre “Era uma vez uma família, um trabalho e uma nação…

  1. Passamos da tradição do coletivo ao individual. Foram postas em questão todas as referências que possuíamos para costurar o tecido social que amparava e dava um sentido às nossas vidas. O que fazer frente a isso?

    Tenho compreendido que é possível costurar novas tramas e tecer novos significados que possam ser partilhados em pequenos coletivos. Sim, digo isso, por entender que não é mais possível construir uma moral institucional que sirva ao atacado. Melhor, acho que nunca foi possível! É tempo de empreendermos caminhos inventivos sustentados por uma ética que produza reflexão sobre caminhos alternativos, que não tragam prejuízo para si nem para o outro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s