Sobre o TABU de NUNCA PERDOAR uma TRAIÇÃO…

Para a cultura ocidental trair é ter contato sexual fora do relacionamento. Pensar em trair não é traição. Fantasiar alguém fora do relacionamento, pode. Elogiar outras pessoas, pode. Olhar a beleza alheia – discretamente – pode. Insinuar tesão por alguém – também – pode. Pegar outra pessoa, não pode. Encostar em alguém, não pode. Tocar, não pode. Abraçar, não pode. Beijar, não pode. Transar fora do relacionamento, jamais. Há ainda muito tabu em relação à traição. Por que pensar pode e beijar fora do relacionamento não pode? Por que falar da beleza de outra pessoa pode e transar com ela não? Beijar outras pessoas gasta os lábios? Transar com mais de um arranca pedaço? É curioso como certas pessoas são capazes de perdoarem uma agressão física e não perdoarem uma traição. Uma coisa é ter o corpo do outro, outra é ter o amor do outro. O amor não é uma coisa. Ninguém está seguro do amor de ninguém. Não vejo o amor do outro. Não pego o amor do outro. Posso me deliciar com alguém só pelo pensamento. Posso estar com alguém apenas de corpo presente. Posso ocupar as mãos do outro e não a sua mente. O outro pode estar comigo por outros motivos – para além de seu amor por mim. Em pensamento, o outro pode me amar e pode amar mais um milhão de pessoas. Qual traição é pior, a do corpo ou a do sentimento? Penso que é a do sentimento. Acho uma lastima alguém estar comigo por outros motivos que não me amar. Não posso controlar o que o outro faz com seu corpo. Não posso é tolerar que ele não me dê o que gosto – ainda que ele não esteja comigo em pensamento. Então, por que dói tanto saber que o outro me traiu – ainda que isso nada mude o amor dele por mim? Penso que não sofremos pela traição em si. O problema não é o outro que trai, o problema sou eu com minhas carências. Sofremos, porque somos inseguros e sempre achamos que a outra pessoa pela qual fomos traídos, é sempre melhor que nós mesmos. Nosso problema, não é do outro ter pulado a cerca, mas dele gostar mais do lado de lá que do lado de cá. O problema não é a traição, mas a nossa insegurança quanto à qualidade do nosso beijo e da nossa transa. Nosso problema, é o medo de perder. Nosso problema, é o medo de sermos trocados. Penso que o mais importante não é enlouquecer tentando controlar aonde o outro vai, com quem ele está, com quem ele fala no zap e nas redes sociais. Mais importante é o calor do beijo, a pulsação do corpo e o frisson da transa. Só estou certo do outro enquanto ele está comigo. Se ele está sendo verdadeiro, jamais saberei. Depois que o outro me vira as costas, não posso mais controlar seus passos. Não tenho o poder de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Depois de um até logo, melhor pensar que o que os olhos não vêm, o coração não sente. Depois de uma despedida, melhor – apenas – torcer para que esse adeus não seja para sempre.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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