QUANDO A IGNORÂNCIA REINA ABSOLUTA…

Ignorante é aquele que subestima a inteligência de seu interlocutor. Não há maior ignorância que pensar que o outro não está entendendo o rumo da conversa. O que realmente motiva as pessoas? O valor. Todo mundo precisa ser valorizado. As pessoas precisam ser instigadas ao exercício do pensar. Não faça de conta que está respeitando a inteligência alheia. Ninguém deveria ser excluído das decisões. A conversa deveria ser franca e igualitária – uma vez que estamos todos conectados. O mundo está virando uma grande praça pública. É impossível uma pessoa se sentir motivada em um ambiente em que é tratada de forma desigual e onde as decisões são sempre impostas. É até possível não participar das decisões – desde que sejam tomadas com inteligência e ética. É muito bom conviver com pessoas que compartilham o exercício do poder. O vício da arrogância e do centralismo detona qualquer coletivo. Ninguém suporta ser tratado como se não estivesse entendendo. Lidar com pessoas que se acham o suprassumo do saber destrói toda a expectativa de quem enxerga além e não pode se expressar. É desesperador para subalternos – com alguma inteligência – ter que lidar com superiores limitados intelectualmente: aos poucos todos se recolhem e se calam, criam uma rotina e dão um sentido puramente utilitário ao trabalho. Há os que pensam que seria melhor não enxergar além e que o ideal seria permanecer no interior da caverna de Platão. Inteligência é perceber o que está por detrás. Inteligência é captar as intenções. É ver interesses. É questionar as falcatruas. É denunciar as ideologias. Inteligência é compromisso, troca, debate, formação, postura, argumentação, responsabilidade, sinceridade, arte e sensibilidade. Inteligência é se preocupar com o ser humano no sentido mais profundo desta palavra. É uma fala alicerçada em valores universais. Inteligência é quando não há necessidade de torcer o nariz. Inteligência eleva e provoca admiração. Inteligência é o bem. Só os inteligentes conseguem identificar uma fala estapafúrdia. Os desprovidos de intelecto são fáceis de convencer e de seduzir pelo superficial. São fáceis de serem manipulados pelo tecnicismo rasteiro. A técnica é ignorante quando se acha capaz de resolver as questões humanas como se estivesse programando um computador. A técnica despreza a inteligência porque a ela só interessa os fins imediatos. A técnica controla vigia, cobra, ameaça, pune e escraviza. A vida se torna insustentável sob o império da tecnocracia. O ser humano é muito complexo para ser controlado. Não adianta tentar alienar o humano. Ele logo compreende a dinâmica e começa a jogar contra. Ser humano é para ser valorizado, respeitado, consultado e instigado. Aos poucos, até os mais ignorantes começam a perceber as perversidades do poder. Alguns começam a criar meios de transgredir a ordem: inventam doenças e licenças médicas. Outros ficam de cara feia. Outros sorriem falsamente. Outros trabalham apenas pelo salário. Não adianta tentar controlar, subjugar, entreter e vilipendiar. Melhor é sentar junto, ouvr e dividir. Ser humano vê além. Nada escapa ao poder do homem. Ao ser desrespeitado ele olha de lado, faz cara de paisagem, fica calado e sorri amarelo. Ele está tentando encontrar um meio de se contrapor aos absurdos da ignorância.

Autor: Evaristo Magalhães – Filósofo e psicanalista clínico

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6 comentários sobre “QUANDO A IGNORÂNCIA REINA ABSOLUTA…

  1. Ana Karine Nery Carneiro disse:

    O mundo empresaria, de forma geral, está com poucos recursos intelectuais. Os empresários utilizam a teoria aprendida sobre as interfaces entre subjetividade e trabalho de maneira muito precária. Assim criam situações constrangedoras ao subestimar a capacidade crítica do trabalhador.

  2. Rachel Liliane disse:

    Nunca me identifiquei com texto como esse. Expressa exatamente com riqueza de detalhes o que as vezes não conseguimos expressar com palavras.

  3. É impressionante mesmo como a inteligência do ser humano é subestimada.
    Mais impressionante é saber que as pessoas, por se prenderem a futilidades, tecnologia e mídia, não exercitam a inteligência e, com isso, se deixam subestimar.
    Uma questão tratada nesse texto que me instigou foi o desespero de um subalterno inteligente que é obrigado a lidar com superiores intelectualmente limitados.
    Vivenciei um caso em uma empresa, em que os sócios eram desprovidos de conhecimento do segmento e a limitação intelectual impediu que reconhecessem a inteligência de subalternos. Com isso, algumas pessoas que tinham conhecimento do negócio foram se afastando, partindo para outras empresas e, conduzida por pessoas limitadas, esta precisou fechar as portas.
    A inteligência do ser humano deve ser analisada e reconhecida. Não só no meio profissional, mas em qualquer relacionamento. Porém, para conquistar o reconhecimento, devemos exercitar nossa inteligência, não nos deixando levar pela tecnologia e a mídia, que, em geral, cada vez mais se tornam a “peste” da sociedade.

  4. José Geraldo Leite disse:

    Respeitar as pessoas pela inteligência, beleza, riqueza, posição social são falácias. Devemos respirar as pessoas simplesmente pelo humano que elas são.

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