NÃO EXISTE ALMA GÊMEA …

A ideia de que nenhum de nós consegue ser feliz sozinho tem sido uma crença que prevalece há muito tempo. De onde vem essa sensação? A ideia de que a presença do outro nos é fundamental está na origem da civilização. Os homens sempre viveram em grupo porque isto lhes dava mais segurança quanto à sobrevivência. Porém, para além do instintual o outro nos é também importante porque é através dele que sabemos quem somos. Não existe um “eu” pleno e definitivo. A descoberta da identidade é relacional e – neste sentido – ela está em constante busca e em conflito permanente entre o que penso que sou e o que o outro pensa de mim. Nesta perspectiva, não existe alma gêmea. Imagine amar um igual ou um espelho? Ninguém é igual. Amar é a sucessão constante de momentos de profundo respeito e de profunda diferença. A história e o desejo nos colocam perante inúmeras possibilidades. Neste sentido, nossas escolhas não são as mesmas e é aqui onde se encontra o melhor do amor: o risco. Quem arrisca petisca. Estou com o outro e só sei disso neste exato momento. Gosto de estar com ele porque – aqui e agora – ele me corresponde. Quando nosso olhar é desviado para outros lados, seguimos o que queremos – independente do que isto possa significar para o outro. Para o amor a regra fundamental é você se sentir realizado. O ideal é você não se repetir nas escolhas. O diferente nos atrai e isto é muito bom. Contudo, a escolha pelo outro vai depender da nossa história e do tamanho da carência que carregamos em nós mesmos. E em certas fases da vida, podemos ser tomados por momentos de grande carência afetiva. O outro – nesses casos – é fantasiado de acordo com o tamanho da nossa própria falta. Qualquer ameaça de perda expõe uma angústia avassaladora. O indivíduo – comumente – reage chateado e agredindo o supostamente amado. O que na verdade está por detrás deste comportamento, é uma certa dificuldade de lidar com o próprio desejo. O outro me completa – isto é delírio. Até porque ele não é completo nem mesmo para si. A vida nos colocou envoltos neste dilema. Desse modo, amar é um aprendizado. A pessoa precisa conhecer – na sua história – a maneira como foi convidada a amar e como respondeu aos seus amores. Isto também fica visível na forma como ela estabelece suas relações com suas dificuldades e dilemas. É importante conhecer e elaborar a própria vida para criar novas formas e não continuar repetindo o passado. Viver é criar. Possibilidades existem. Nesta perspectiva, o amor é a força que nos impele para uma pseudo-totalidade – ou – para uma plenitude provisória. Queremos a felicidade. Porém, querer não é poder – na medida em que colocamos o amor na ordem de desejo. A psicanálise fala de pulsão de vida e de pulsão de morte. Uma que aponta para a totalidade e outra que aponta para a desagregação. Somos uma mistura de completude e de falta. É o que a vida nos ensina. Procuro no outro aquilo que me falta. O que não podemos é achar que o outro é capaz de suprir nossas carências. Relacionamentos marcados pela posse quase sempre acabam muito mal. Antes de amar é preciso primeiro exercitar a introspecção e aceitar a história pessoal – independente da forma como ela aconteceu. É só na medida em que assumirmos nossa condição de pessoas incompletas é que poderemos aceitar o outro nesta mesma condição. O outro não pode ser uma espécie de deus. Talvez isto seja possível apenas na imaginação. Talvez isto explique a proliferação de livros de auto-ajuda ensinando técnicas para conquistar um grande amor. Contudo, o amor não é uma questão meramente técnica. É uma disposição de si para o outro. É dividir intimidades e histórias. O amor é respeito. É a capacidade de aceitar a si mesmo e o outro do jeito que ele é em sua finitude. Neste contexto, não importa se são dois homens ou duas mulheres. O humano ultrapassa o genital. Tudo é uma questão de adequação e de bem estar. Afinal, cada um é livre para escolher a companhia que lhe traz mais felicidade. O homem está condenado a buscar e esta busca é a coisa mais imprevisível que existe. Se ele quer encontrar sua alma gêmea – já pode ir desistindo – mesmo porque se viesse a encontrá-la seria a pessoa mais infeliz deste mundo. Entendo que quem procura sua alma gêmea – no fundo – está procurando a si mesmo de uma maneira confortável e anulando qualquer possibilidade do conflito. Só me encontro na diferença. Sei quem sou porque não sou igual ao outro. Só crescemos no conflito. Alma igual não existe – nem clonando. A vida é processo e indica movimento e mudança. Encontrar a alma gêmea dá a ideia de encontrar a própria morte. Tem gente que gosta de viver na ilusão de que o amor é uma relação de completude perfeita. Isto só existe em contos de fadas. Precisamos do conflito – sempre. Quando afirmo isto pode parecer que todo relacionamento é marcado – apenas – por discórdias. Não é verdade. No decorrer de qualquer relacionamento existem momentos de estabilidade e de profundo respeito pelas diferenças. Talvez são estes momentos que levam os amantes à ilusão de que encontraram sua alma gêmea. O que temos que fazer para encontrar nossa alma gêmea? Nada. Você pode fantasiar e sonhar. Para encontrar um grande  amor é necessário que primeiro você se disponha a se conhecer. O amor é – antes de qualquer coisa – verdade, sinceridade e transparência para consigo mesmo. Quero dizer que tudo isso vai sendo construído na medida em que vamos convivendo com o outro. Retrocedemos e avançamos. O importante é estar ciente de que qualquer relacionamento só é valido se ele nos fizer crescer. É por isso que tenho uma certa irritação com a expressão “alma gêmea”. Ela me remete a uma relação estática e imutável. Que me perdoem os iguais – mas – em matéria de amor a diferença é fundamental. Sejamos flexíveis porque amar é tudo o que produz bons momentos. Amar é brincar, conversar, divertir, sonhar, discordar, reconsiderar e chorar. Tudo isso faz parte do jogo amoroso. O mais importante é encontrar no outro um espaço para nossa solidão: estar só é a própria escravidão. Experimente-se no outro. Disponha-se. Arrisque. Vamos ver no que vai dar.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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