FELICIDADE …

ser

sem

mim

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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MELHOR AGIR SEM PENSAR …

Qual a diferença entre pensar e agir? Agir é bem mais interessante. Pensar é previsível, obsessivo e demarcado. O agir é imprevisível e sem garantias. Há quem se escravize em conceitos, teorias e doutrinas. Há quem se liberte em ato, permitindo-se fluir. O pensar adoece. O ato cura. Podemos nos perder de nós mesmos enquanto agimos. Impossível deduzir as sensações que experimentamos ao nos tocar. Nosso corpo é quase só o que pensamos dele. Aliás, neste caso, pensar apenas serve para recalcar o que sentimos. Definitivamente, a verdade não é o que pensamos, mas o que fazemos conosco. O pensamento é hipócrita e mascarado. Ao agir, revelamos, de fato, quem somos. Ao começarmos a nos tocar poderemos estimular certas zonas absolutamente incompatíveis com o que pensávamos sobre nós mesmos. Deve ser por isso que masturbar foi considerado um ato condenável por tanto tempo. Posso viver um turbilhão de sensações quando me toco, quando toco alguém e quando me permito ser tocado por alguém. Em ato tudo é possível. Talvez, por isso mesmo, estranhamos tanto imaginar nossos pais transando. Somos mais de um enquanto pensamos e apenas um enquanto agimos. Ninguém mente agindo. Inventamos o público para pensar e a intimidade para agir – para o bem ou para o mal. Não deveríamos nos envergonhar de nossos atos – exceto quando não são para o bem. O que fazemos é o que somos de mais verdadeiro. O bom do ato é que nunca saberemos aonde ele vai dar. Em ato, somos. Em palavras, nos recortamos. Deve ser por isso que a escola é muito mais estimulada que a arte. O teatro é atuação. O ator entra em cena. A arte escancara. A escola esconde. Ver estimula fazer. Qual o problema quando é por amor? Prefiro muito mais os artistas que os intelectuais. A arte tem mais vida. O intelecto é, quase sempre, frio, pedante e chato.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

ESTAMOS INFELIZES PORQUE ESTAMOS PROCURANDO A FELICIDADE NO LUGAR ERRADO …

O problema é que na vida tudo tem – no mínimo – dois lados. Algumas músicas são alegres e outras nem tanto. Dificilmente, tudo o que comemos está como gostaríamos. Na vida, nada é pleno. Nada é cem por cento. Nada é constante ou regular. Nada é absoluto. Jamais saberemos se o bom de agora continuará. Por isso, começamos a sofrer antes mesmo da festa terminar. Não estamos seguros do amor de ninguém. A vida não é só felicidade. Os sentimentos são dúbios. Não controlamos de sermos tomados por uma emoção que não gostaríamos. Um dia cinzento pode afetar nosso humor. Um olhar pode nos deprimir. Um comentário pode nos deixar agressivos. Podemos enxergar tristeza em uma planta, na solidão de uma montanha ou na melancolia de uma estrela que já não é. Nunca estamos integralmente felizes. Começamos a envelhecer logo que nascemos. Cada minuto que passa é um a menos para a nossa vivacidade. Por isso, não deveríamos nos concentrar nessa nossa vida esquisita e contraditória. Precisamos ocupar nossa mente com o que não é alegre nem triste, com o que nem ama e nem desama, com o que nem envelhece e nem rejuvenesce. Precisamos libertar nossa mente do duplo para focarmos no UM. Ou seja, existe – sim – um lugar sem sentimentos e sem pensamentos. É possível que acessemos este lugar silencioso e que está depois de todas as palavras. O mundo não é só o desespero do trânsito, a correria, as guerras, as brigas, a insensibilidade, o egoísmo, o medo do desemprego, o medo de perder a juventude e o medo de morrer. O mundo é muito mais que isso. Não deveríamos fixar nossa mente nisso que é pura inconstância. Precisamos transcender nosso intelecto para um pouco mais além. Existe – sim – um lugar onde as palavras e as tristezas findam. Nesse lugar, tudo é o mesmo o tempo todo: sem dubiedades e sem sentimentalidades. As coisas – simplesmente – são: sem dores, conflitos, medos e oposições. Não há – nesse lugar – antes e nem depois, longe ou perto, grande ou pequeno, quente ou frio, seco ou molhado. Esse lugar está para além de tudo o que pensamos e sentimos que somos. Ele é sempre o mesmo todas as vezes que o acessamos. Sua consistência é sem angústia, ansiedade, depressão, raiva ou melancolia. Nele, cessam todas as nossas contrariedades. Ele está depois desse nosso cotidiano maluco. Nele nos esvaziamos: nada pensamos, nada sentimos, nada escutamos e nada enxergamos. Nele, somos plenos, porque somos sem qualquer interferência.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O AMOR É TUDO NA VIDA …

Deve ter sido porque alguém deixou de ser amado que a infelicidade passou a existir no mundo. Tememos a velhice, porque há o risco de sermos abandonados por quem muito amamos. O amor é tão bom que esquecemos tudo quando estamos amados. O amor para o tempo e eterniza o momento. Não queremos saber de mais nada quando somos olhados como se fôssemos a coisa mais importante do mundo para alguém. Nada mais terrível quando da ausência de um grande amor. A casa fica muito mais completa quando algum amor vem ao nosso encontro. O amor amortece todos os pesos do nosso viver. Certamente, a angústia, a ansiedade, a depressão e o suicídio vieram ao mundo, porque alguém, em algum momento, perdeu um amor que não devia. Jamais saberemos explicar o sentido dessa força maior chamada amor. Seguramente, o amor é o que existe de mais importante na vida. Não sobreviverá o filho em que a mãe prefere dar a ele um tablete em lugar de dar amor. Nada mais confortante que um toque amoroso. Nada substitui um beijo de amor. Nada pior que a dúvida de quem jamais esperávamos qualquer desamor. Tudo fica mais leve e mais alegre quando é feito com amor. Tudo de pior emerge quando falta amor. Quase não pensamos na maldade do mundo quando temos algum amor por perto. Os dias ficam mais vazios, as noites mais complicadas e os espaços mais distendidos quando falta algum amor para ocupar. O estresse aumenta e a motivação diminui quando falta alguém para compartilhar. Alimentamos sempre melhor quando a mesa é composta por mais de um. Deus deveria prover a todos – e o tempo todo – de algum amor. Deveria ser proibido – por lei – trocar qualquer coisa por amor. O amor é a melhor coisa do mundo – porque não pode ser comprado ou forçado. Só o amor conforta – porque vem de dentro, é verdadeiro, não tem explicação e é gratuito. É seguro que o amor nos foi dado como o melhor antídoto para suprir essa nossa humanidade repleta de interrogações e desesperos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE O MUNDO ESTÁ TÃO DEPRESSIVO?

Penso que não é alegria beber até quase entrar em coma alcoólico. Não pode ser amor transar só por transar – e sem os cuidados mínimos consigo e com o outro. Não entendo como alguém pode se sentir acolhido conversando – o tempo todo – pelo zap. Não acredito que alguém possa sonhar com uma sociedade melhor apenas replicando mensagens preconceituosas. Não entendo como alguém pode tomar como divertida uma festa onde as músicas escancaram misoginia e sexo explícito. Não vejo a menor possibilidade de alguém adquirir qualquer informação relevante apenas acessando memes pelas redes sociais. Acho um absurdo alguém defender a volta de um regime ditatorial depois de todos os absurdos que a história já nos contou acerca desses regimes. Acho que não estamos bem. Penso que o mundo está – sobremaneira – depressivo. A forma como nossas vidas estão sendo conduzidas, não parece que estamos tentando sair desse nosso buraco sem fim. Muito pelo contrário, parece que estamos mergulhando ainda mais no desespero a que fomos jogados. Violência não é virtude. Não é solução resolver pelo ódio. Estamos ensandecidos quando defendemos uma justiça – claramente – partidária e seletiva. Falaremos de nós mesmos – no futuro – como uma geração completamente perdida. Seremos contados como alguém que tentou resolver a depressão com mais depressão. Não é a melhor saída detonar tudo sem propor algum caminho – minimamente – sensato. Não há alternativa que não seja o meio termo. A justiça é a virtude. O bom senso é sempre a melhor via. Precisamos retomar a capacidade de sentar para negociar. Temos que chegar tentando encontrar uma solução – e não colocando ainda mais lenha na fogueira. Todo egoísmo é uma forma de violência. Ninguém aceita perder o pouco que possui para grupos que permanecem no poder só ostentando e afrontando. A violência não é o sentido. Precisamos – urgentemente – de alguém que dê conta de chamar para conversar. Estamos a caminho de um estado de guerra. Estamos desequilibrados. Estamos perdendo a razão. Estamos tentando sair da barbárie, porém, a caminho de mais barbárie. Isso não vai acabar bem.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

É POSSÍVEL – SIM – VIVER MENOS ANGUSTIADO …

Os antropólogos e psicólogos afirmam que se não tivéssemos herdados a linguagem, teríamos permanecidos na condição de animais. Será que só podemos ser instinto ou razão? Será que se deixássemos de pensar – necessariamente – voltaríamos para o mundo da natureza? Será que não existiria mais nada entre biológico e o mental? Não creio que a coisa possa ser resumida à compreender ou enlouquecer – mesmo porque estaríamos todos loucos, uma vez que nenhuma filosofia, até hoje, conseguiu encontrar qualquer resposta para as nossas questões mais urgentes. O fato é que podemos ser para além do psíquico e do orgânico. Ou seja, Entre pensar e surtar, podemos sentir e intuir. Não precisamos desesperar para o que foge dos nossos conceitos. O misterioso pode não ser assim tão ameaçador. Não devo entrar em pânico por não saber. Bonito não é só o que tem conteúdo intelectual ou físico. Belo não é só o que parece muito bem explicadinho. O nada pode ser maravilhoso – por que não? Quem disse que não posso gostar do que não controlo? Quem disse que precisa ter sentido para fazer sentido? Quem disse que preciso explicar para me fazer compreender? Quem disse que não posso amar meus vazios? No universo há muito mais espaços de silêncio que de palavras. Há muito mais mistérios que ciências. Sofremos, porque só sabemos amar o saber. O próprio saber não nos ensinou a amar o não-saber. Tememos o escuro. Logo inventamos um barulho qualquer para preencher o nosso silêncio. Só sabemos lidar com o adverso como um inimigo a ser derrotado. E se mudássemos nosso olhar para tudo o que mais tememos? E se nos entregássemos ao vácuo? E se deixássemos o pensar só para a hora de pensar? Não dormiríamos melhor? Não ficaríamos menos ansiosos ou angustiados? Não viveríamos com um pouco mais de paz? Penso que sim.

Evaristo Magalhães – Psicanalista