VOCÊ CONSEGUE SER FELIZ SÓ COM VOCÊ?

Solidão não é ficar só – no sentido de ficar distante de tudo e de todos. Solidão é ser capaz de ficar só com o que se tem e com o que se é. Solidão é dar conta de amar o aqui e o agora. Solidão é dar conta de ser feliz com o presente. Solidão é dar conta de gostar da vida real. Solidão é contentar consigo, com suas coisas e com seus amores. Somos descontentes. Somos ansiosos e compulsivos. Quase nunca damos conta de ficar a sós com o que temos e somos. Por isso, passamos quase a vida toda infelizes. Nunca ficamos só com a praça ou com o nosso guarda-roupa. Sofremos de uma falta que nunca esgota. Se ficamos com mais de um, poderíamos ter ficado com com mais de dois. Se comemos disso, poderíamos ter comigo daquilo. Não sabemos viver só. Nunca é a casa que tenho. Ainda não é o quarto que eu gostaria. Não foi a viagem que eu esperava. A sociedade de consumo sobrevive desse nosso mal-estar crônico de viver. Parece que quanto mais temos, mais falta sentimos. A felicidade é solitária – no sentido de dar conta de amar sem pensar que não é. Nunca retornamos sem uma queixa. Todo mundo sempre tem alguma reclamação. Sempre poderia ter ficado um pouco melhor. Estamos o tempo todo à espera de um dia que nunca chega, de uma imagem que nunca se revela no espelho e de um amor que só existe na nossa imaginação. Quando vamos acalmar nosso espírito? Quando viveremos menos ansiosos e menos angustiados? Quando teremos – enfim – a paz que procuramos sempre tão longe, mas que está escorrendo agora pelos nossos dedos e não percebemos?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

POR QUE NÃO ENLOUQUEÇO NO BRASIL?

Não consigo não me sensibilizar – por exemplo – com as pessoas que estão passando fome – porque sei que a miséria é fruto da desigualdade social. Ou seja, há – sim – os poucos que se apoderam de quase toda a riqueza. Há quem não sofre – porque pensa que a pessoa passa fome porque quer. Não consigo pensar assim. Por isso, sofro. Há quem enxergue algo de positivo nessa dor: desperta compaixão e o espírito de luta. No entanto, precisamos tomar muito cuidado com esse tipo de pensamento – especialmente em um país de tantos contrastes sociais como o nosso. Resolver o problema da miséria não é tão simples como consertar um eletrodoméstico. Como não sofrer com tanta injustiça? Como manter a sanidade com poucos ostentando tanto – e ainda defendendo que foi tudo conquistado por mérito? Como lutar sem enlouquecer no Brasil? Tenho tentado buscar algum sentido no que conseguimos produzir e ainda produzimos de bom. Busco na nossa arte uma forma de não me deixar embrutecer por uma mídia que insiste em me fazer acreditar que pobreza é questão de vagabundagem e que bandido bom é bandido morto. Busco na música, na literatura, no cinema e no teatro do Brasil, uma forma de continuar me alimentando mentalmente e, de alguma maneira, não perder a esperança de – um dia – poder viver em um país um pouco mais fraterno. Pode parecer utópico demais, mas é o que tem me sustentado para continuar prosseguindo …

Evaristo Magalhães – Psicanalista

EU QUERO É GOZAR A VIDA …

Existe uma forma de ficarmos no vazio sem que isto configure um problema. Ficar no vazio, no sentido de nos libertarmos dos nossos conflitos. Não só estamos no mundo: queremos entender o mundo. Não só usufruímos das coisas: queremos formular conceitos e ideias sobre as coisas. Não apenas sentimos o mundo: temos mania de problematizar nossos sentimentos. A questão é que, quase nunca, esperamos o problema vir à tona. Queremos adiantar tudo. Daí, não vivemos, não usufruímos e não sentimos. A questão é que não resolvemos quando pensamos para resolver. Não há um único pensamento para qualquer coisa. Tudo pode ser pensado de múltiplas formas. Se queríamos pensar para termos sossego, ledo engano. Criamos um inferno para nós mesmos – quando queremos uma solução lógica para o que não tem lógica – ao menos no sentido de trazermos um problema do passado para o nosso presente. Desse modo, há um vazio, sobremaneira, benéfico para a nossa saúde mental: o vazio do pensar. É quando cessamos de racionalizar que encontramos a verdade do mundo. Deveríamos deixar o problema para a hora dele. Deveríamos pensar apenas no momento em que a questão se fizesse presente. Não deveríamos inventar problemas quando não há problema. Ou, não deveríamos trazer um problema de lá para cá, de ontem para hoje ou de amanhã para agora. Há muito o que gozar da vida. Temos a mania de achar que esse gozo precisa passar – primeiro – pelo crivo do pensar. Não concordo. Precisamos pensar menos e viver mais. Há todo um fluxo de vida (sons, toques, gostos e imagens) acontecendo dentro e fora de nós mesmos. Basta querer. Basta se permitir viver. A felicidade é vazia.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

QUALQUER COISA, MENOS O LULA …

Qualquer coisa, menos isso. Este é um pensamento típico de gente recalcada. O que é o recalque? É quando não posso nomear, porque ao reconhecer, faço existir o que não consigo suportar. Por que certas pessoas querem o Lula como carta fora do baralho? Lacan diz que quando amamos buscamos no outro o que nos falta. Na base do preconceito, ninguém que considero pior pode me dar o que não tenho. Só os perversos excitam-se com o baixo, o sujo, o podre e o grotesco. Nesse caso, então, Lula seria fetiche do amor e ódio de quem o rejeita. Não tenho dúvida de que Lula é o sintoma da classe média brasileira. O sintoma é o ódio que coloco no lugar do meu desejo – no sentido de segurar o recalque do amor que tanto nego. Quantos não são – duramente – discriminados por amarem alguém que lhes é – socialmente – considerado inferior? Lula é muito, por isso precisa ser tratado como resto, nada, estorvo, sobra, escombro, entulho. Não podemos deixar de considerar que grande parte do ódio ao cantor Chico Buarque, deve-se à dificuldade em admitir como uma pessoa como ele pode gostar de alguém que veio do nordeste montado em um pau de arara. Na psicanálise, tudo menos, pode ser tudo mais. Não há outra explicação para tanto ódio quando alguém diz preferir qualquer coisa a Lula. Qualquer coisa, é muito sintomático. Não estou dizendo que Lula não tenha cometido erros como presidente. O que me assusta é a não indignação para com certas figuras – e tanto desprezo quase todo dirigido apenas para ele. Tanto ódio, não pode ser só ódio. Se fosse ódio mesmo, ele não seria tão amado por tantos e por tanto tempo. Não é possível tanta gente equivocada – e por tantas décadas. E não se trata de paixão ou fanatismo, porque sabemos – muito bem – que toda paixão dura pouco. É uma pena que tanta gente prefira o suposto limpinho, engomadinho e que fala bonitinho, mas que – no fundo – só faz figuração política. É uma pena fazer gozar do que me falta só com aparência. Quanta futilidade! Não devo viver só para me ver refletido. Pode ser bom para mim que o outro se veja como me vejo. É por isso que gosto de Lula: ele me faz ver para além de mim. Ele joga no meu espelho esse excluído e me faz ver que é bom para mim que ele fique bem também. Lula me faz me ver nesse outro, porque, caso contrário, esse mesmo outro me fará me ver nele – nem que seja na marra. É isso que não quero que aconteça. Por isso, quero Lula presidente – de novo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista