ONDE VIVO?

em

um

deserto …

de vez

em quando

me passa

algumas miragens

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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O AFETO É TUDO …

Ao sairmos na rua o que vemos? Ao chegarmos em uma festa o que vemos? Pessoas? Não. Vemos corpos. Pessoas são mais que corpos. São afetos.

É neste sentido, que os corpos, em princípio, não são pessoas. São apenas corpos.

Não posso chegar em um ambiente qualquer e esperar encontrar pessoas. Os corpos só serão pessoas, para mim, na medida em que me endereçarem algum afeto.

De modo geral, chegamos em um lugar sempre esperando encontrar pessoas. Sofremos porque esperamos encontrar algum afeto de alguém em nossa direção. Pode não acontecer.

Desse modo, somos, em primeiro lugar, sempre, solidão. Onde quer que estejamos temos que nos sentir como se estivéssemos em um deserto. Quem nos rodeia precisa ser visto como um ser ambulante que desconhece a nossa existência.

Não posso olhar os corpos como se fossem pessoas. Não posso olhar os corpos procurando o meu afeto neles. Não posso ir por afeto. Não posso chegar fissurado por afeto. Não posso querer que os corpos me reconheçam como pessoa.

Em princípio, tenho que me sentir como não existindo para ninguém. Tenho que me sentir só existindo para mim. Tenho que interagir meu afeto com o ambiente – uma vez que a decoração, a música e a bebida, por exemplo, não necessitam de ter afeto por mim para me fazerem sentir bem.

Aprontamos, maquiamos e nos perfumamos para tentar trazer o afeto dos outros para nós. Todo mundo quer ser reconhecido como pessoa. Quer ser amado, elogiado e desejado por alguém. Ocorre que pode não acontecer. É por isso que o melhor é enxergar todos como seres, em princípio, desafectados. Nunca esperar ser reconhecido como pessoa por ninguém é preventivo da frustração.

Se alguém lhe endereçar algum olhar de desejo, atente-se para a força e a duração deste olhar. Nem toda visada é de afeto. Olhares famintos não são de afeto, por exemplo. Quanto mais profundo, contemplativo e sensível for o olhar mais revelador ele será de sua pessoa para o outro. Fora isto, são corpos cruzando com corpos e não pessoas cruzando com pessoas. O afeto é tudo. Hoje ele está ficando cada vez mais raro. Melhor é não esperar por ele. Melhor é nutrir para si o afeto que seria para o outro. No entanto, não tem preço a magia de afetar e ser afetado por alguém. Muitos já viveram esta experiência. Muitos poderão nunca viver. Afeto não se compra. Afeto não se obriga. Afeto é sorte, destino, coincidência ou magia. Não existe explicação.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VIVER É FAZER ARTE DE SI MESMO …

Sofremos porque sempre esperamos encontrar fora a verdade sobre nós mesmos.

Existem os objetos e as palavras. Dos objetos, nada sabemos. Só sabemos dos objetos através de algo exterior e estranho a estes. Ou seja, só sabemos dos objetos através das palavras que os nomeiam.

A questão é que uma coisa são as palavras e outra são os objetos.

Ficamos angustiados e ansiosos quando tentamos compreender quem somos através das palavras. Para saber quem somos teríamos que inventar algo que nada tivesse relação com as palavras. Teríamos que criar novas ferramentas e novos materiais que não fossem os conceitos, as teorias, doutrinas e ideologias.

Pensar é infernal. Ninguém tem a última palavra de nada. Quem é o pai de Deus? Quem é o pai do pai de Deus? Impossível saber.

Penso que a grande contribuição da psicanálise foi a de fazer um furo no saber instituído pela cultura. Foi a de mostrar que a verdade não existe. Foi a de nos despir de tudo o que de fora tem a pretensão de nos dizer quem somos.

A psicanálise quer que o que venhamos a ser nasça de nós mesmos. Da nossa carne. Do nosso osso.

Que seja um escrito. Uma letra ou um ato. Mas que seja algo genuinamente nosso e sem qualquer mediador. Que abramos mão das marcas que nos foram impostas e criemos nossas próprias marcas. Viver é fazer arte de si mesmo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NINGUÉM ACORDA?

Não acordamos depois de uma boa noite de sono. Acordar não é bem isso. Continuamos dorminhocos mesmo depois de abrirmos os olhos e começarmos o dia.

E não podemos acordar mesmo. O depressivo acordou. O ansioso também. O suicida acordou e não deu conta do que viu. O esquizofrênico acordou e nunca mais conseguiu voltar a dormir como antes. Poucos conseguem – de fato – despertar.

Dormimos enquanto pensamos. Dormimos enquanto falamos. Dormimos enquanto amamos. Dormimos enquanto brigamos.

Os cientistas dormem enquanto pesquisam. Os filósofos dormem em seus sistemas. O religiosos dormem enquanto rezam e pregam.

Freud diz que fazemos isto para não fazermos aquilo. Estamos aqui para não estarmos lá.

Tudo é fuga. Tudo é recalque para não acordar. Poucos dão conta de viver – de fato – no mundo real.

Ocorre que a vida se encarrega de interromper o nosso sono. E como passamos quase o tempo todo embebedados pela ilusão da felicidade, ao sermos abruptamente despertados, levamos um susto, um choque ou um trauma. Mesmo assim retornamos para o nosso falso e paradisíaco mundinho. Muitos correm para academia. Outros para o cirurgião plástico. Há aqueles que nunca abrem mão de seu Rivotril. E assim vamos, vivendo da mentira e camuflando as verdades da vida. Vamos ver até quando?!

Evaristo Magalhães – Psicanalista