QUAL O SEGREDO DO AMOR?

Não estamos seguros do amor de ninguém. É sempre possível aos nossos amores encontrar amores ainda mais amáveis que o nosso. Ou seja, temos que dar conta de amar o amor e de amar o fantasma do desamor. O que fazer para que o fantasma do desamor não nos tome por completo? O que fazer para amar sem entrar em pânico? Se o amor é o que mais queremos, o desamor tem – também – que tomar parte da nossa condição de amantes. Temos que ceder à realidade do desamor na mesma medida do quanto investimos no amor que temos. Precisamos fazer do desamor um acontecimento real tanto quanto o fazemos de quando estamos amando. No entanto, precisamos ceder ao desamor sem que essa cessão nos seja algo por demais insuportável. O contrário – também – não pode acontecer: ceder ao amor negando toda e qualquer possibilidade de ser desamado. Nenhum amor desenlaçado do desamor pode terminar bem. Temos que nos permitir ao desamor até um ponto favorável que não configure em masoquismo grave. É o mesmo que manter a crença na possibilidade da perda – de tal modo que ela sequer configure uma surpresa caso venha a se fazer real. Estranho seria se o amor fosse da ordem da crença e o desamor da ordem da realidade. O amor é o que mais queremos. Contudo, não podemos abominar o desamor. Podemos crer nele, mantendo-o na borda da possibilidade e da impossibilidade. Que ele permaneça ali, porém, sem nos configurar incômodo significativo …
Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO PODEMOS CONTINUAR TROCANDO A VERDADE PELA MENTIRA…

Sofremos porque insistimos em trocar a verdade pela mentira. Toda verdade é preventiva da dor – uma vez que ela nunca cessa. Sofremos, porque insistimos em suplantar o amor no lugar do desamor. Por isso mesmo, desesperamos quando o outro não atende ao telefone e entramos em pânico quando ele parte de vez. No fundo, verdade e mentira não são antinomias. A verdade da vida é dura, disso já sabemos. A mentira amortece o que temos como certo. Trocamos o real pelo irreal. Já sabemos o desfecho disso tudo e insistimos em não querer saber. O real é o começo, o meio e o fim. A ilusão ajuda a tornar o meio assim não tão real. Na verdade, criamos tantas mentiras boas que até nos iludimos como sendo verdades. Empanturramos de comidas deliciosas, ao ponto de esquecermos que comer demais pode não fazer muito bem. O amor é uma coisa tão boa, que até queremos tomar o outro como sendo propriedade nossa. Comprar alivia tanto a nossa ansiedade, que até esquecemos da fatura do cartão de crédito no final do mês. Mentimos e nos estrepamos. Dizem que a verdade dói: não deveria ser assim. Nossa cultura consumista nos ilude que podemos ignora o ignorável. O problema é que acreditamos que dois mais dois são quatro. Na vida, essa conta nunca fecha. Na vida, dois lados nunca é apenas um. Disseram-nos que o outro lado é superável. Doce ilusão! Nunca só ganhamos! Sempre estaremos perdendo. Se observarmos atentamente, veremos que nunca estamos cem por cento bem. Cremos na felicidade plena, porque disseram-nos que podemos esquecer os lados tristes da vida. Seríamos muito melhores se aprendêssemos a olhar a outra parte não como outra, mas como parte dessa. Não existe o outro. Tudo sou eu: vivendo e morrendo, amando e desamando, alegre e triste. Não deveria ser isto ou aquilo: deveria ser tudo uma coisa só. Quem sabe – um dia – conseguiremos tratar nossas certezas com um pouco mais de tranquilidade!
Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO DEVERÍAMOS LEVAR A VIDA TÃO A SÉRIO…

Não há como viver sem alguma dor. Não enlouquecemos porque conseguimos colocar algo da nossa imaginação nas bordas desse nosso incômodo. Tudo o que vem depois dele é pura fantasia. Só a dor é real – porque nunca cessa. Nossa sobrevivência está na dependência da nossa capacidade de inventar o sentido de viver. Equivocamos quando queremos cobrir tudo. Deveríamos brincar mais com a vida. Deveríamos encontrar outro jeito de enxergar essa dor de existir. Não deveríamos levar a política tão a sério. Não deveríamos tomar a religião com tanta literalidade. Viver não é oito ou oitenta. A vida não é isso ou aquilo. Não adianta combater o incompatível. O que fazer com a dor quando nada a toca? Temos que tomá-la como um acontecimento. Não somos só ciência, só filosofia, só arte ou só angústia. Somos tudo isso junto e misturado. Temos a dor. Só a dor é real. Tudo o que vem depois dela é puro artifício. Nossa qualidade de vida dependerá da nossa capacidade de unificar ciência, filosofia, arte e dor no mesmo infinito laço de viver. Nenhum fanático suporta a dor e todo depressivo acovarda-se dela. Segue, quem consegue ajeitar-se com ela. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE INSISTIMOS NOS MESMOS ERROS?

Ao nascermos, adentramos no universo das palavras. Daí, desembestamos a pensar. Vivemos de blá blá blá. Insistimos, mesmo sabendo que não vamos chegar a lugar algum. Aderimos a doutrinas e brigamos por ideologias. Achamo-nos possuidores da verdade sobre o amor, a vida e a felicidade. Parecemo-nos mais um tambor, ressoando em nossos corpos, palavras de todo tipo que não nos levam à qualquer conclusão. Não sabemos existir fora dessa caixa de ressonância. Passamos a vida toda deslizando em palavras. Mesmo errando, vamos alternando de teorias, ideologias e doutrinas. Viramos escravos da palavra. Só sabemos existir pensando. Existe saída? Sim. Qual? Inventar o nosso próprio idioma. Não mais falar a língua do outro, mas falar a nossa própria língua – ao menos no ponto do nosso prazer de viver. Ou seja, no ponto em que só eu devo saber de mim. No ponto da minha intimidade. Ali onde as luzes se apagam, onde só eu sei de mim e onde apenas eu me escuto. Ali onde estou escrito. Ali onde deixo quem sou falar livremente. Ali onde a boca não é a que trago no rosto. Nunca seremos nós mesmos se formos pela língua que nos obrigaram a falar. Essa língua não tem fim. Não existe a palavra da palavra. Só comigo posso ser como sou. Não devo ser o que querem que eu seja. Não devo colocar nada atrás, ao lado ou na frente de mim. Devo ser como sou. Só posso ser comigo decifrando o que está escrito em mim – sem duplo sentido. Tenho que ser UM comigo.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ É UMA PESSOA TRAUMATIZADA?

Todos somos traumatizados. O que é o trauma? É tudo o que sinto e o que me acontece e que não tenho nada a dizer sobre. É o que tenho de estranho, enigmático e perturbador. Em tudo há um trauma. Nunca entendemos tudo o que nos dizem. Nunca estamos cem por cento certos do amor que temos. Jamais conseguiremos prever o futuro. Por não sabermos, ficamos ansiosos e angustiados. Por não sabermos, não dormimos direito. Por não sabermos, nos entupimos de antidepressivos. Por que temos mania de tudo querer saber? Não existiria outro modo de lidar com o que não tem sentido? Existe, sim. Só aprendemos a lidar com nossos traumas pelas palavras. A questão é que as palavras não dão conta de tudo. Além disso, as palavras nos são impostas: falamos sempre a língua do outro. Não somos quando falamos. Somos no silêncio dos nossos traumas. Seremos a partir do que inventarmos sobre isso que a palavra não toca. Seremos a partir do modo como nos arranjaremos com nossas perturbações. Ninguém pode resolver isso por nós. Enlouqueceremos? Entraremos em depressão? Ficaremos histéricos? Ou faremos arte dos nossos absurdos? 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

PRECISO PROCURAR POR MIM MUITO ALÉM DE MIM…

Preciso aprender a procurar por mim muito além de mim – uma vez que me transbordo de mim. Sou arcaico de mim. Existo antes mesmo de mim. Tem algo de mim que não cabe em mim. Não o sou: tenho-o. Não é conceitual. Não tem sentido. Não é matemática. Não é deletável. Nada pode me tirar. Não adianta falar. Não é crença. Não é imaginação. Não é fuga. Não tem salvação. Nele tenho que me curvar. Tudo se esvai com ele: toda beleza, dinheiro e inteligência. Nele toda beleza é falsa, todo dinheiro é nada e nenhuma inteligência o compreende. Se o encontro, não o busco mais. Se o encontro, o tomo como meu. Se o encontro, não o temo. Continuarei amando, sonhando e acumulando? Sim. Porém, com gratuidade e desprendimento. Quem chegar, não chegará para me livrar dele. Também, não irei para fugir dele. Quem chegar, será recebido só pelo prazer de ter vindo. Qualquer encontro será apenas pela gratuidade de ficar junto. Saberei de mim com toda a humildade e a doçura de mim. Saberei e me amarei com todos os enigmas de mim.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE PRECISAMOS DO AMOR?

Se examinarmos – com calma – veremos que não tem o menor sentido viver. No entanto, quem nos colocou aqui, para não pirarmos, deixou-nos uma série de laços para tapearmos essa falta de sentido da vida. Dentre estes, foi nos dado o amor. O amor é o melhor antídoto contra as nossas angústias. Nada de concreto pode confortar-nos do fato de que vamos envelhecer e de que vamos morrer um dia. Não adianta entupir-se de antidepressivos. Não adianta enriquecer. Não adianta plastificar-se. Por quê? Ninguém pode ser amado só por ser rico ou bonito. O amor não se compra. O amor não tem interesse. O amor é livre. O dinheiro não pode ser o fim do amor. A beleza – sim- pode ser o meio do amor: o amor tem que ser o fim. Desse modo, tudo depende do uso que podemos fazer do dinheiro e da beleza. O amor é abstrato. O amor é um sentimento. O amor é o bem, o belo e o justo. O dinheiro deveria ser uma ponte para o amor. A beleza deveria trazer por detrás de si o amor. Talvez, por isso mesmo, hoje, as pessoas estejam tão solitárias e tão depressivas. Perdemos os nossos melhores mediadores para lidarmos com nossas angústias. Colocamos o ter no lugar do ser. Trocamos a profundidade do amor, das artes, da confidencialidade, da cumplicidade, da entrega e do desejo, pela solidão das cifras e das imagens. Ou seja, viramos coisas e tristes.
Evaristo Magalhães -Psicanalista