POR QUE NÃO É FÁCIL PERDOAR?

Sentimento não é algo físico que pode ser eliminado, não é um órgão que pode ser extraído e não é um vírus que pode ser combatido. Ainda não inventaram um bisturi capaz de operar nossas dores mentais. Qualquer sentimento – desejo, mágoa, medo ou raiva – uma vez instalado, não sai mais. Não há cura para as dores psicológicas. Freud dizia que não há recalque capaz de conter as emoções. Então, tudo o que está sob o efeito do recalque, vive. Carregaremos o medo de morrer enquanto estivermos vivos. É possível amenizar esse medo? Sim. Para isso, a cultura nos deu os sonhos, as crenças, as festas, os amigos e as viagens, dentre outros. É possível esquecer uma mágoa? Sim. É simples? Não, porque não existe mágoa sem um agente magoante. Só esqueceremos a mágoa, quando o seu agente nos der provas de que o que ele cometeu foi um vacilo feio ou um equívoco circunstancial. O problema é que a nossa tendência natural é a de associarmos a pessoa que nos magoou com tudo de pior. Por isso mesmo, cabe só à ela desconstruir – em nós mesmos – isso que ela mesma incutiu lá dentro. Mente quem perdoa sem nenhuma contrapartida de quem errou. Quem me traiu, precisa me reconquistar a confiança que eu – um dia – tive nele. O trabalho de retomar a relação não depende mais de mim, e sim, dele. Não se trata de apenas pedir perdão. A coisa não se resolve só com uma conversa e um abraço de tudo bem no final. Isso é hipocrisia. É necessário recomeçar do zero e ir reconquistando a confiança do outro – com naturalidade e sem forçar a barra. Não há dúvida, de que o primeiro passo é um pedido de perdão. No entanto, é muita ingenuidade pensar que, no minuto seguinte ao perdão, o outro já vai estar arreganhando os dentes para ela. Muito provavelmente, as coisas vão permanecer como estavam – ainda por algum tempo. A diferença, é que, a partir daí, a pessoa magoada, ao que tudo indica, passará a observar o outro, no sentido de se certificar se, de algum modo, ela amadureceu como pessoa, se comparada com o que viveram antes do rompimento da relação. Caso ela certifique-se positivamente, as coisas serão retomadas – lenta e calmamente. Este é o preço mínimo que um traíra pode pagar pelos erros que cometeu. O mais importante disso tudo é sempre a sinceridade com seus sentimentos e, nunca, a hipocrisia. Não é perdão se não vier de dentro. Não é perdão se não for verdadeiro.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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NÃO ESPERE POR NINGUÉM …

O que espero ninguém pode me dar. Não existe o amor que preciso. Não existe a beleza que procuro. Nenhuma inteligência pode resolver meu problema. O que sou independe disso tudo. Isso que tanto tento buscar fora de mim é impreenchível. Não consigo elevar isso à qualquer dignidade através de pessoas, coisas, pensamentos ou crenças. Isso é meu. Nada cabe aí. Nada resolve. Não adianta desesperar, gritar, chorar ou rezar. Tenho que tomar isso como sendo meu e sem qualquer mediador. A beleza é dar conta de olhar para isso sem máscaras. Inteligência é não pensar nisso. Temos que elevar isso à zero. Isso é uma coisa que tenho. É algo que só posso ver ou sentir. Não consigo transmitir, substituir ou transgredir. Isso sou eu no que tenho de mais verdadeiro. Ou seja, sou um nada meu.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

SOBRE A INVASÃO DO MTST DO TRIPLEX DO GUARUJÁ …

A psicanálise é uma clínica do ato analítico. O que significa interpretar em ato? É não deixar alternativa ao sujeito. Interpretar em ato é colocar o paciente diante da sua verdade – nua e crua. Nesse sentido, o analista não dá muitas opções ao seu analisante, a não ser criar algo novo diante do que ele queixa. Dali, ele não tem alternativa, a não ser sair de onde está, agora no enfrentamento de si em seu sintoma. Na anorexia – por exemplo – o analista interpreta com a morte – uma vez que ninguém sobrevive sem comer. O MTST fez um ato analítico ao invadir o triplex do Guarujá. O juiz Sérgio Moro insiste que a residência pertence ao ex-presidente Lula. Os advogados de Lula provam que não. Agora, a verdade terá que vir à tona. Ou seja, o verdadeiro dono terá que pedir reintegração de posse? Como sabemos que não é de Lula, nada mais justifica a sua prisão. Finalmente, teremos o nosso candidato livre para ganhar as eleições de 2018.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

QUEM É DEUS PARA MIM?

Deus não fala. O silêncio é o barulho de Deus. Penso para controlar. Falo para dominar. Mato Deus quando penso e falo. Mato Deus quando acredito em Deus. Deus começa onde termina o som das palavras céu e inferno. Deus começa onde termina o som da própria palavra Deus. Deus está depois da minha fé em Deus. Deus está depois de tudo que imagino como sendo Deus. Deus não é maiúsculo. Deus não tem letra. Deus não tem nada. Deus sou eu sem mim. Deus sou eu sem o que sei de mim. Deus sou eu sem me existir. Deus sou eu – completamente – desprendido de tudo de mim. Deus está em todos os lugares – porque Deus é sem antes e um depois. Deus não tem causa – porque Deus não tem nome e nem é uma coisa. Deus não tem prédio e nem conta bancária. Deus não tem púlpito e nem porta voz. Só preciso de nada para estar com Deus. Amar a Deus é a minha capacidade de amar o nada. Estar com Deus é a minha capacidade de estar no vazio. Posso estar com Deus o tempo todo – porque posso estar comigo sendo nada. Deus está depois do ar que enche os meus pulmões. Fico melhor quando fico com o que tenho, certo de que não tenho ou que um dia deixarei de ter. Deus é invencível – porque a arma de Deus é não ser nem mesmo Deus. Ninguém pode contra Ele. Deus é o tempo que não controlo. Deus me chama para si. Deus me me puxa para o seu silêncio. Deus me fez para me refazer como nada. Vencerá o silêncio que Deus me fez. Deus é quando a festa acaba. Deus é quando o outro vai embora. Deus é quando o outro sequer aparece. Deus sou eu sem mim. Não suportamos Deus. Aliás, odiamos Deus com nossas vaidades e discursos. Brigamos, porque não queremos ver Deus. Todo compulsivo – no fundo – quer é suprimir o buraco de si onde Deus habita. Há quem se desespere com o silêncio de Deus. Não amamos Deus. Só amamos Deus através de coisas e de conceitos. As coisas perecem ou caem no esquecimento. Deus não tem forma, não tem peso, medida e nem consistência. Deus é tudo o que não imagino, não vejo, não penso, não toco, não falo e não sinto.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

JAMAIS SABEREI QUEM SOU …

Sou o que sinto sem a minha interpretação. Sou o que não nomeio em mim. Sou meus gestos e meus movimentos involuntários. Sou os barulhos que não faço em mim. Sou meus batimentos cardíacos, minha pulsação e minha respiração que não posso comandar. Sou quando me toco sem nenhuma intenção. Sou a minha espontaneidade quando não lembro. Sou tudo o que está acontecendo em mim sem eu saber. Sou meus sons insensatos. Jamais saberei quem sou – porque só sou – exatamente – quando não sei. Sou dois: um com palavras e outro sem palavras. Esse que sou quando me explico não sou eu. O que tem haver a palavra do meu nome comigo? Eu poderia ser qualquer palavra. Esse meu eu escrito e falado, é um eu inventado. Não devo atentar a mim. Não devo prestar atenção em mim. Sou quando não tenho memória de mim. Onde sou é sem teorias e sem sentimentos. Onde sou não tem angústia. Onde sou não tem conflito. Sou depois das palavras. Sou quando não sei. Minto pra mim quando acho que sei quem sou. Sou quando só me observo – sem qualquer leitura. Sou quando só me acompanho. Sou quando só me vejo. Sou quando só me contemplo. Sou quando não me controlo. Sou só quando venho de mim e não quando vou pra mim. Sofro quando me nego. Sofro quando não me respeito. Sofro quando me julgo. Sofro quando não me deixo livre no que tenho de mais meu.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

A FELICIDADE EXISTE SIM …

Não há quem ame certo de seu amor. Não há quem trabalhe seguro de não ficar desempregado. Nunca estamos cem por cento certos do que dizemos. Não temos o poder de prever o que pode acontecer. Ou seja, não temos escolha: há uma parte do nosso viver que é mesmo tensa demais. Por isso, ficamos ansiosos e angustiados. Muitos ficam depressivos ou desistem de dar continuidade. No entanto, ninguém suporta passar o tempo todo agitado ou melancólico. Tenho, por mim, que não dá para vencer a melancolia com pensamentos e palavras. Também, não creio em uma vitória, sobre esse lado obscuro da vida, se entupindo de ansiolíticos e de antidepressivos. Não creio que a solução esteja do lado de cá da vida. Penso que a solução encontra-se do lado de lá disso que estamos mergulhados. Definitivamente, o amor não é garantia de paz. Nenhum trabalho é paradisíaco. Ninguém tem a última palavra. Os intelectuais não param de discutir. Creio na existência de um lugar depois do amor, da agitação do trabalho e do blá blá blá das palavras e das ideias. Lá não tem nada disso. Eu consigo chegar lá. Pena que não posso ensinar o caminho: este lugar não é feito de palavras e nem de pensamentos. Ele não é desse mundo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista