Hippies e Narcisos

A ideia de pertencimento sempre fez parte da história da humanidade, bem como a ideia de contestar e demonstrar insatisfação frente a alguma situação destoante da que se pretendia: se os hippies podem ser considerados precursores de um movimento que ainda hoje surpreende por ser inovador, uma vez que se rebelou contra aquilo que, para eles, parecia distante de um ideal almejado, os jovens do novo século XXI parecem pertencer a uma atmosfera rodeada de espelhos e zonas de conforto – nada de movimentos que exijam esforços além daqueles necessários.

Se antes, e embora fosse Paz e Amor o lema que se pregava, agora, em um mundo pleno de velocidades e interconexões, o lema parece ser Eu me amo, sem espaço para o outro e para o que ele representa.

 1 – Os Hippies

Paz e amor. Paradise Now. Desbunde. Desrepressão. Revolução. Cabelos compridos. Roupas coloridas. Misticismo. Músicas de Protesto. Viagens. Drogas. A imaginação está tomando o poder. Nos anos de 1960 e 1970 este comportamento extravagante significava novas maneiras de pensar, modos diferentes de encarar e de se relacionar com o mundo e com as pessoas. Tempos novos firmavam-se com maior força, pegando a crítica e o sistema de surpresa, transformando a juventude num foco de contestação radical: a contracultura conseguia se afirmar como um movimento catalisador e questionador, capaz de inaugurar para setores significativos da América e da Europa, um estilo, um modo de vida e uma cultura marginal, que, no mínimo, davam o que falar.

O movimento contracultural surge num contexto político e social marcado por conflitos de classe, de raça e de gênero. Referido movimento, colocava frontalmente em xeque a cultura oficial, prezada e defendida pela tradição capitalista.

Diante dessa cultura privilegiada e valorizada, a contracultura se encontrava efetivamente do outro lado das barricadas. A afirmação e a sobrevivência de uma pareciam significar a negação e morte de outra. Assim, era o conturbado mundo dos anos de 1960 e 1970, cheios, no entanto, de muita fé e esperança no presente, ou mesmo num futuro ainda que muito distante.

E é nesse contexto que se insere o grande sonho do movimento Hippie da construção, no mundo aqui e agora, do seu paraíso de paz e amor: vivia-se a filosofia do drop out – expressão que significava ‘cair fora’ da cidade para o campo, da família para a vida em comunidade. Surgem aí inúmeras comunidades agrícolas – um espaço no qual se pudesse viver outra vida. Cabe lembrar o festival de Woodstock, que reuniu os maiores ídolos daquele movimento, entre eles Jimmy Hendrix e Janis Joplin. Realmente, o que se configurou durante aqueles três dias de festival, foi a ‘nação de Woodstock’, um outro país, um outro mundo, no qual o lema ‘é proibido proibir’ foi posto em prática.

É interessante observar também que a música contracultural estava extremamente marcada pelo projeto de uma sociedade nova. Hendrix, por exemplo, com a guitarra em suas mãos, fazia todos os sons possíveis e impossíveis deste instrumento. No festival de 1969, num dado momento, ele inicia uma improvisação com a guitarra a partir do hino dos Estados Unidos. Pouco a pouco, através de um som violento e angustiante, a melodia vai sendo literalmente estraçalhada, dissolvida. Em seguida, sem nenhuma interrupção, começa a tocar o ‘Purple Haze’, uma de suas composições mais célebres, com enorme suavidade e delicadeza, numa tentativa de contrapor, à desintegração do hino nacional americano, um novo hino da contracultura.

Nesta tentativa de inventar uma nova maneira de viver, o movimento concentrava sua energia revolucionária especialmente no questionamento da repressão dentro de cada um, na busca de si mesmo e do significado da existência, enfim, grandes ‘viagens’. As drogas surgem também com um sentido contracultural, e não simplesmente visando um prazer momentâneo. O psicodelismo aparece como ‘movimento social’ e até certo ponto político. A viagem de LSD era vista com uma peregrinação religiosa devido aos fortes esquemas repressivos contidos na cultura ocidental, que agiam sobre as consciências individuais, limitando-as. Eric Burdon, do conjunto Animals, dizia: “a experiência da droga, a longo prazo, pode não representar nada, mas nos ensinou que deixar-se caotizar não é necessariamente inútil”.

Do ponto de vista político, Che Guevara foi o grande mito contracultural hippie. Nas manifestações mais combativas pelos direitos civis e contra a agressão ao Vietnã, seus retratos eram estampados como emblemas de luta. A experiência de Che nas selvas da Bolívia era vista como a grande experiência de implantação do socialismo na América Latina numa verdadeira frente anti-imperialista – era exatamente este seu enorme envolvimento pessoal numa luta de libertação verdadeiramente sem fronteiras que fazia dele um herói como poucos. Poucas vezes na história, ou talvez nunca, uma figura, um homem, um exemplo, se universalizaram com tal força e paixão.

2 – Os Narcisos

 Woody Allen, em O Dorminhoco, trava o seguinte diálogo com sua mais recente ‘transa’: “não acredito em saídas políticas”. Ela: “você acredita no que então?” Ao que ele respondeu: “em sexo e morte”.

Politicamente falando, os anos a partir de 1980 estão assistindo ao fim do sonho da revolução social. Se o movimento contracultural protestava e projetava um mundo no qual os homens seriam mais livres e iguais, nos anos mais recentes a pessoas franzem a testa aos problemas relacionados diretamente à sociedade na qual elas estão inseridas.

Prevalece hoje as máximas religiosas distorcidas de acordo com o nosso contexto: “amar a si mesmo sobre todas as coisas” e “bem-aventurados os que amam a si próprios, porque deles será o reino dos céus.” Estamos diante de um eu vazio envolto numa busca narcísica e compulsiva que aponta para uma autodestruição. Isto fica visível na indústria da pornografia, que tem início com fotos românticas de nus sensuais, descamba rapidamente para uma obsessiva exposição da genitália, e, nos últimos tempos, aponta para participantes de reality shows expondo suas intimidades de forma quase trash num mundo globalizado pelas mídias digitais.

Nos anos de 1960 e 1970, cabelos compridos, tatuagens, drogas, música e sexo, vinham acompanhados de um movimento coletivo que visava à libertação individual e à revolução social, se contrapondo àquele modelo burguês de organização política.

Atualmente, drogas, piercing, brincos, cabelos coloridos, música e dança, perderam a relação com os problemas sociais e viraram objetos de consumo fashion, efêmeros. Se você perguntar a um adolescente por que ele mutila o umbigo, o nariz e o olho, se você obtiver alguma resposta, é provável que ela será curta e vazia: porque viu na TV, acha bonito e só.

Os adolescentes compulsivos se drogam por puro prazer pessoal. Nossos jovens queimam índios e mendigos, vão às ruas quando a mídia, por conveniência, insiste num escândalo, que, para os mais conscientes, já não é nenhuma novidade.

Nossa música repete a nossa mesmice social: as letras e as batidas são sempre as mesmas. Qualquer comportamento é movimento consciente: ou o sujeito concorda com o sistema ou se rebela contra ele. Nossos adolescentes são sui generis, com um comportamento que gira em torno do nada. Se fôssemos diagnosticar nossos meninos, diríamos que eles não mais se sensibilizam com a dor do outro. Estão mergulhados numa lógica publicitária que exige consumidores mutantes e compulsivos. São violentos nos estádios, ilegais no trânsito e inconsequentes no sexo, só por serem violentos, ilegais e inconsequentes, e mais nada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Existe alguma saída para o quadro nebuloso anteriormente apresentado? Somos capazes de sonhar com um espaço humano pautado na liberdade e na solidariedade, tal como os hippies dos anos de 1960 e 1970?

Este artigo foi movido por um sentimento de pessimismo, porém, por detrás de tamanha angústia real, existe um desejo de reação. O desencanto pode, de fato, destruir o país – e é contra ele que se deve lutar agora.

Cabe-nos reafirmar o tema da Ética. Investir na criação de novas formas de ação compatíveis com os nossos ideais inscritos na nossa tradição cultural: “se o coletivo deixa de ser o espaço próprio ao exercício da liberdade para se tornar o lugar privilegiado da delinquência, os cidadãos intimidados retraem-se nos mecanismos cegos de sobrevivência”. (FREIRE, 2000[1]).

Cabe-nos relembrar quem somos, com a certeza única de que não somos nada sem o outro, nossa imagem, reflexo, nosso semelhante.

[1] FREIRE, Jurandir. A Ética e o Espelho da Cultura. Disponível em: https://www.academia.edu/8490594/Costa_Jurandir_Freire_-_Etica_Espelho_Da_Cultura. Acessado em: 23. Jul. de 2015.

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TODO AMOR É – NO FUNDO – UMA GRANDE MENTIRA…

No fundo, somos completos: fizeram-nos incompletos. Somos socialmente usados para o amor, quando, na verdade, a intenção é outra. A civilização usa a ilusão do amor porque, de outro modo, ela poderia ir à bancarrota. Não há dúvida de que nos damos ao outro por uma questão de manutenção da sociedade. Nesse sentido, ninguém é feio ou bonito. O meio nos obriga à feiura para que perpetuemos um tipo de amor baseado no princípio de que deve existir alguém que pode nos dar o que não temos. Foi através de uma mentira que a humanidade inventou a família. Na verdade, a sociedade inventou a ilusão do amor apenas para garantir a reprodução de si. Esse amor que a cultura diz existir, nunca existiu para ninguém. Somos manipulados para o amor. Só amo no outro o que não tenho: não há amor de outro jeito. Disseram-nos que se amarmos poderemos conseguir o que não temos. Mentira! É contraditório associar amor com felicidade. A felicidade é – na verdade – o fim do amor: deixo de amar quando consigo o que alimentava o meu amor. No fundo, ninguém ama. As pessoas se suportam porque temem serem discriminadas. Amor é sinônimo de violência. Não há amor sem briga. Não há amor sem cobranças. Não há amor sem mentiras. Não há amor sem falta: se for de outro modo, não é amor. Não seremos – de fato- felizes enquanto não encontrarmos outros motivos para estar com alguém, que não esse ridículo de buscar compensar no outro o que falta em nós mesmos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NUNCA SEREMOS COMPLETAMENTE AMADOS …

Jamais seremos completamente amados, porque o amor que acreditamos não existe. Uma coisa é o amor que nos disseram e que pensamos existir. Outra, é o amor que vivemos e que achamos que nunca vale à pena – porque está sempre aquém do amor que sonhamos. Se o amor fosse genético, amaríamos conforme estivéssemos – biologicamente -programados para amar. Não é. O amor é uma invenção da cultura. Alguém deveria escrever – um dia – a história do amor. Não há dúvida de que pensamos menos no pior quando estamos amados. Não há dúvida de que ficamos menos ansiosos e angustiados quando alguém especial resolve gostar muito da nossa companhia. Ocorre, que isso não possui qualquer constância e qualquer regularidade para ninguém. Todo amor muda e todo amor pode acabar. O amor é um artifício. Creio que o amor está desaparecendo, não porque o mundo está acabando. Creio que o amor está desaparecendo, porque a humanidade está encontrando formas menos problemáticas de lidar com suas questões – que não essa da falsa ilusão pelo amor. Quem foi que disse que tenho que ter alguém para ser feliz?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O AMOR É TUDO NA VIDA …

Certamente, foi porque alguém deixou de ser amado que a infelicidade passou a existir no mundo. Importamos com a velhice, porque tememos o abandono de quem nos ama. Perdemos a memória quando estamos amados. O amor para o tempo e eterniza o momento. Não queremos saber de mais nada quando estamos amados. Nada mais terrível quando da ausência de um grande amor. A casa fica muito mais completa quando algum amor vem ao nosso encontro. O amor amortece todos os pesos de viver. Certamente, a angústia, a ansiedade, a depressão e o suicídio vieram ao mundo, porque alguém, em algum momento, perdeu um amor que não devia. Jamais saberemos explicar o sentido dessa força maior chamada amor. Seguramente, ela é o que existe de mais importante da vida. Não sobreviverá o filho em que a mãe prefere dar a ele um tablete em lugar de dar amor. Nada mais confortante que um olhar de amor. Nada substitui um abraço e um beijo de amor. Nada pior que a dúvida de quem jamais esperávamos qualquer desamor. Tudo fica mais leve e mais alegre com amor. Tudo de pior emerge quando falta amor. Quase não pensamos na maldade do mundo quando temos algum amor por perto. Os dias são mais vazios, as noites mais difíceis e os espaços mais distendidos quando falta algum amor para preencher. O estresse aumenta e a motivação diminui quando falta alguém para compartilhar. Alimentamos sempre melhor em uma mesa para dois ou mais. Deus deveria prover a todos – e o tempo todo – de algum amor. Deveria ser proibido – por lei – trocar qualquer coisa por amor. O amor é a melhor coisa do mundo – porque não pode ser comprado ou forçado. Só o amor conforta, porque vem de dentro, é verdadeiro, não explica e é gratuito. É seguro que o amor foi o que de melhor nos foi dado como antídoto para suprir essa nossa humanidade repleta de interrogações e de certezas inexplicáveis.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO QUEIRA O OUTRO QUANDO ELE NÃO TE QUER…

Sofre por amor quem tem o perfil de ficar correndo atrás. Só ama de fato quem tem o perfil de não gostar de ninguém atrás de si. Não queira o outro quando ele não te quer. Para saber se o outro te quer, esteja atento à quantas vezes ele te procura. Desista, se só você procura. Esteja atento se ele quer saber de você: idade, profissão, gostos musicais, estéticos e tipos de balada. O amor é um vai e vem. O amor é uma via de mão dupla. Ninguém ama sozinho. No amor, é fundamental dar espaço no outro para você aparecer nele. Não sabe o que é o amor quem só se ama. Não sabe o que é o amor quem nada se ama – também. Não se trata de fazer joguinho, de dar uma de difícil ou de fazer doce. O amor tem uma lógica. A lógica é a seguinte: se o outro perguntou sobre você, responda e pergunte em seguida. Se ele respondeu, aguarde a próxima pergunta sobre você. Se ele não perguntar, não pergunte também – senão a relação corre o risco de virar um encontro onde a vida de quem pergunta não tem a menor importância. Amamos, na medida em que interessamos pelo outro e somos interessantes para ele. Não posso só interessar. Tenho que ser interessante também. Deixo de existir quando não sou interessante. Preciso me fazer existir – ainda que seja apenas para mim mesmo. Preciso me fazer amado – ainda que seja apenas para mim mesmo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista