A vida não é pensar, é fazer …

A vida não se faz pensando. Temos as ideias e as coisas. No entanto, as ideias não são as coisas. A palavra maçã não é o objeto maçã. A palavra maçã não carrega o desenho, a cor, o sabor e a tessitura da fruta maçã.

Podemos viver no mundo do pensar ou no mundo das coisas.

Quem vive no mundo do pensar, vive no mundo das letras, das sílabas, das palavras, das frases, dos conceitos, das ideias e das teorias.

Quem vive no mundo das coisas, vive no mundo das formas, dos traçados, dos toques, dos contatos, dos cheiros, dos sons, dos sabores, dos gostos, das cores, das texturas, das sensações, das imagens, das paisagens, dos fluxos e dos movimentos.

Eu prefiro viver no mundo dos gestos. Gosto do imprevisível e das infinitas configurações do dia, da manhã, da tarde e da noite. Gosto de ver o céu, as nuvens, as montanhas, a terra e as árvores. Gosto de ver os bichos, suas formas, suas cores, seus movimentos, seus cantos e grunhidos. Gosto de sentir o clima, o frio, o calor, o vento e a beleza dos rios e do mar.

Os conceitos são fixos, constantes, regulares, sistematizados, rigorosos e profundos, mas são – também – frios.

Não gosto do que só tem sentido para a razão. Gosto do que tem sentido para o corpo, do que toca a minha carne, minha pele, me faz pulsar, tremer, gemer e regozijar.

Não gosto do pensamento que me desvincula do mundo e dos meus sentidos. Acho perda de tempo e de vida raciocinar sobre uma lógica que não me guie para usufruir com meus olhos, ouvidos e paladar de todo o meu entorno de coisas, espécies e pessoas.

Por que pensamos tanto? Para não ver, não sentir e não gozar. O pensar é asséptico demais. O sentir é diferente. Sentir é contraditório. Não tem forma definida. Não é previsível. O sentir é mais vida que pensar. Sentir é experienciar que tudo vai e vem, nasce, cresce, morre e renasce.

O pensar é a pretensão à uma verdade fixa que não existe concretamente. O sentir é mais verdadeiro porque nos faz usufruir enquanto podemos. No pensar, sequer usufruímos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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Falta ética, inclusive, para aqueles que brigam pela ética …

 

Sabemos – muito bem – o que fazer com o lado bom da vida.

Adoramos quando tudo acontece como gostaríamos.

Só sabemos fazer bem-feito quando tudo parece estar dando certo.

A questão é que somos – também – o que não gostamos.

Não damos conta de assumir as consequências disso que somos e queremos ver bem longe de nós.

Não sabemos fazer bem feito com o que – de verdade – somos.

Nosso maior desafio ético não é apenas saber parar no sinal vermelho e respeitar o próximo.

Nosso maior desafio ético é saber como lidar com isto que nos aparece e que – tanto – nos perturba. Perderemos pessoas queridas. Vamos envelhecer porque somos finitos.

Muitos não sabem lidar com o desamor. Quantos não matam por amor?!

Muitos não sabem lidar com o envelhecimento. Quantos bizarros por compulsão por cirurgias plásticas?!

Muitos não sabem o que fazer com o vazio. Quantos obesos extremos?

Muitos não sabem lidar com a sexualidade. Quantos homofóbicos?

A ética começa, primeiro, comigo. Não posso lidar com o que não sei de mim projetando nos outros minhas frustrações pessoais.

Não posso permitir que minhas ansiedades e angústias interfiram nas minhas relações de trabalho e nos meus relacionamentos amorosos.

Não posso me auto-exterminar como uma forma de me punir pelo que sinto e não gosto em mim.

Primeiro preciso ser ético comigo, para depois ser ético com o outro.

Ensinamos valores, mas não temos coragem de olhar para o valor que estamos dando ao nosso próprio corpo, aos nossos familiares, amigos, amores e colegas de trabalho.

É ótimo querer uma sociedade melhor para todos. Difícil é se dar conta de que essa sociedade começa a partir relação que estabelecemos com a gente mesmo.

Como querer um mundo melhor quando estou para o mundo sendo o pior comigo mesmo?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

AMAR É DIFERENTE DE SENTIR AMOR …

 

Discordo, radicalmente, daqueles que dizem que não existe mais amor no mundo. Não gosto desse moralismo de amor líquido. Amor não se mede, não se pesa e não se define.

É óbvio que não podemos dizer que ama, alguém que só gosta de ficar, pegar, sarrar e transar. No entanto, não podemos dizer que essa pessoa não sente amor. Sentir amor é muito diferentes de amar.

Há quem passe a vida toda amando e há quem passe a vida toda sentindo amor. Há quem comece sentindo amor e termine amando. Há quem comece amando e termine sentido amor.

Não vejo a menor possibilidade de qualquer pessoa dar conta de fazer sexo sem nenhum sentimento – ainda que seja profissional do sexo.

Não é sexo quando é sem emoção. Temos que inventar um outro nome para isso: instinto, impulso, necessidade. Isto é possível ao ser humano? Não creio.

Penso que uma pessoa em uma festa pode beijar quantos ela quiser. Duvido que ela tenha feito isto sem nenhum critério de escolha.

O critério – no humano que fala – é sempre algum amor.

Não nascemos com o amor. O amor é uma linguagem. E como as palavras não são as coisas, é possível inventar várias palavras para o que seja amor. Cada palavra é uma forma nova de amor. Infinitas palavras ainda serão inventadas para o amor.

Sentir amor é diferente de amar porque é mais efêmero e fulgaz. Amar é mais duradouro. Inclusive, podemos amar uma pessoa e sentir amor por outras. Por que não?

Temos mania de julgar e de hierarquizar tudo. Daí, não sei a partir do que, saímos por aí dizendo que o passageiro é pior que o duradouro e que o muito é melhor que o pouco? O que é o muito? Conheço casamentos longos que – o casal – sequer – experimentou uma vez sentir amor entre si.

Não é saudável enquadrar a novidade. Precisamos ver o novo não a partir do nosso velho, mas a partir do próprio novo.

Acho lindo um casal se pegando no canto de uma festa. Vejo amor naqueles corpos se contorcendo, naquelas mãos deslizando, pegando e amassando aqueles corpos, naquelas línguas extravasando pelos lados das bocas e naqueles olhos pulsando de tesão.

Adoro ver quando a pegação acaba. Nada é dito. Nem mesmo os nomes. Não foi preciso. O corpo disse. A pele disse. O orgasmo disse tudo.

Ambos voltam para a pista. Recomeçam a dançar. Ao final da festa, voltam para suas casas: leves e felizes. Quer melhor amor que esse?

Evaristo Magalhães – Psicanalista