POR QUE SÉRGIO MORO TEM QUE SER PUNIDO?

Somos pensamento e ação. A coisa se complica quando desvinculamos o pensar do agir.

Podemos até agir sem pensar. No entanto, precisamos de alguém para nos dizer da nossa ação. Melhor, precisamos de alguém para qualificar a nossa ação.

Sérgio Moro agiu mal. Sérgio Moro agiu sem pensar – e sua ação não foi submetida à qualquer qualificação.

Quem poderia ter qualificado as ações de Sérgio Moro? Seus pares. Acontece que – ao que tudo indica – ele os submeteu à sua vontade.

É complicado quando não existe o Outro do Outro: que pode ser um outro Juiz, um colegiado de juízes, o povo ou Deus. Enfim, qualquer coisa que impeça a mentira, a vingança, a perseguição, o ódio e a injustiça.

Quando não consigo ser meu próprio Outro, preciso buscar esse meu Outro fora de mim. Caso contrário, me transformarei em um psicopata.

Esse Outro é a linguagem. Não há ato sem sentido. A violência não tem lógica.

É a nossa própria existência que estará em jogo se compactuarmos com o uso da lei para interesses particulares.

Sérgio Moro errou. Ele não refletiu antes de agir. Ele não submeteu suas ações à escuta de alguém. Ele não trouxe seus atos para a palavra. Ele agiu de modo impulsivo. Ele surtou.

E, para piorar, mesmo depois de todas as suas tramoias terem vindo à tona, ele prossegue tentando se safar do óbvio.

Se Sérgio Moro não for punido, isto ampliará ainda mais o fosso moral que nunca paramos de aprofundar desde que este país recebeu o nome de Brasil. Quando será que seremos – de fato – uma nação séria?

EVARISTO MAGALHÃES – PSICANALISTA

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ACHO A MAIOR BOBAGEM ESSA HISTÓRIA DE PERGUNTAR QUEM SOU EU …

Quem somos só dura o tempo presente. Saber quem sou – agora – não vale para quem serei daqui a pouco.

O tempo não é igual. O mundo não é regular. A natureza não é constante e as pessoas não são idênticas.

Saber quem somos não tem nada a ver com autoconhecimento. De nada resolve eu saber das minhas ideias e dos meus sentimentos. Posso me deparar com situações que não se encaixam em nada do que sou. Posso vivenciar perdas que nunca vivenciei – e que me colocam diante de emoções que eu jamais havia sonhado viver.

Saber de si não é se conhecer – no sentido introspectivo dessa expressão.

Saber de si é estar preparado para o emaranhado de coisas e de sensações que é viver.

Saber de si não é abrir gavetas internas, mas é saber enodar todo essa confluência de ideias e sentimentos contraditórios que compõem a nossa existência.

O inconsciente não é uma parte do nosso mental. O inconsciente não são ideias e desejos recalcados.

O inconsciente é o imprevisível da vida. É o que teremos que inventar – uma vez que nada do que possuímos pode nos ajudar.

O inconsciente é o que me falta para lidar com o adverso.

O inconsciente é a capacidade de trançar situações em que falham as ferramentas que tínhamos.

O inconsciente independe de qualquer bagagem e de experiência de vida.

O inconsciente é invenção. É fazer arte da vida. Isto não tem nada a ver com idade – mesmo o bebê cria algo de si quando não tem alguém que faça por ele.

Não entendo porque tem tanta gente blefando em recriar a própria vida.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Não existe o que você procura …

Desejar é diferente de demandar. O desejo é UM e a demanda são várias.

O que é o desejo? Gostaríamos de encontrar o amor de nossas vidas, o emprego que sempre buscamos e fazer a viagem dos nossos sonhos. Quem não gostaria de permanecer jovem e de nunca morrer?

Ocorre que não existe uma lógica precisa para os nossos desejos. Desejamos, mas não existe uma receitinha pronta de como realizaremos.

Não existe o objeto do nosso desejo. Na vida real, se misturarmos os ingredientes direitinho, certamente teremos, no final, um delicioso bolo de chocolate. Na vida emocional, não adianta pensar, calcular e planejar. Podemos até demandar, mas nunca estaremos seguros de que seremos correspondidos em nossos desejos.

Em nosso psiquismo, uma mais um nunca é dois. Por causa desse UM podemos amar muitas pessoas a vida toda. Podemos trocar de trabalho inúmeras vezes e podemos passar o tempo todo viajando – e sem nunca ter nosso desejo por qualquer coisa satisfeito.

É por isso que os casais se desentendem. Querem que suas demandas respondam com exatidão ao que desejam.

O outro será sempre um estranho para o meu desejo. Depois de um certo tempo, não há quem não apresente alguma queixa de seu emprego. É por isso que terminamos uma viagem já pensando na próxima.

Penso que foi por isso que a vida nos deu o espaço e o tempo. Dentro destes, nos ofereceu – também – um amplo raio de ação composto de pessoas, funções e lugares.

Não se iluda com picaretas tentando te vender uma solução milagrosa para o que te falta. Essa solução não existe.

Viver é demandar. Nossa qualidade de vida está na dependência da nossa capacidade de não paralisarmos no fato de que nada e nem ninguém pode resolver por nós isso que é a nossa essência – sempre inacabada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ ESTÁ SEM MOTIVAÇÃO PARA VIVER?

As pessoas dizem estar muito angustiadas porque não estão conseguindo encontrar motivação para viver. No entanto, não existe a menor possibilidade de encontrarmos motivação para viver se não estivermos angustiados.

Angústia quer dizer falta. Falta quer dizer: invenção, inovação, criação.

Portanto, não cale a sua angústia se entupindo de medicamentos.

Tudo no mundo só foi inventado porque, em algum momento, alguém se sentiu angustiado.

Qualquer fala, movimento ou gesto, só passou a existir por algum desejo de satisfação.

Todos que estão, agora, andando, correndo, dançando, comendo, conversando e transando, só estão fazendo tudo isso porque se sentiram insatisfeitos com o que estavam fazendo anteriormente.

É a angústia que propicia o sentido de viver. Sequer sairíamos do lugar se não ficássemos angustiados.

Vivemos para nos desviar da angústia ou para perfurá-la.

Cada palavra ou cada movimento que fazemos funciona como uma nuvem que a cada vez que desce – como chuva – faz sulcos para escoar, sentir e nutrir a terra.

Os animais não dão conta de criar quando são limitados: morrem em suas angústias. Nós, humanos, ao contrário, vamos para cima, quebramos as algemas, saltamos as muralhas ou saímos pela tangente.

Portanto, a angústia não nos foi dada para ficarmos esperando por um milagre. Não é por ninguém que seremos salvos de nossos dramas.

Nesse sentido, a religião e o consumismo nos subestimam quando nos enganam e nos exploram com o engodo de que possuem a solução para nossos dilemas existenciais.

Portanto, a angústia é política. Gerações passadas vivenciaram situações muito mais complicadas – e resistiram. Por que não resistiremos. Penso que – por interesse – querem que não resistamos. Querem nos paralisar nos abarrotando com medicamentos para que não nos reinventemos em nossas angústias. Possivelmente, porque nossas reinvenções devem significar – para eles – mudanças radicais nas relações de poder.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TANTA DEPRESSÃO?

Nossa existência sofre de diferentes atravessamentos. Somos atravessados pelo tempo que nos envelhece, pelo nosso corpo que adoece, por pessoas problemáticas e por questões sociais como: desemprego, violência, corrupção e miséria.

Quem não gostaria de permanecer sempre jovem? Imagina que maravilha seria se pudéssemos passar pela vida sem nenhuma doença?! É uma pena que ainda não conseguimos construir a nossa utopia social.

A felicidade não é um milagre. Nossa alegria de viver está – o tempo todo – sendo atravessada por fantasmas que nos apavoram.

A vida não é lógica e nem matemática. Duvide das receitinhas fáceis de felicidade. Viver é imprevisível. Cada velhice é única. Cada corpo é único. Ninguém tem o poder de modificar – sozinho – a economia e a política da sociedade em que vive.

Nossa qualidade de vida está – o tempo todo – condicionada pela capacidade que temos de desviarmos ou de fazermos furos nesses atravessamentos.

É a imprevisibilidade que impossibilita todo e qualquer conhecimento definitivo sobre a vida. Nesta perspectiva, viver não é saber sobre a vida. Viver é saber-fazer com a vida. Espera-se que façamos bem.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É SABER DE SI?

Ninguém é profundo. Somos todos superficiais.

Somos guiados por pensamentos e palavras. As palavras não são as coisas.

Não é pelo pensamento que saberemos quem somos. Essa conversa de introspecção é o maior engodo. De nada adianta eu falar de mim. De nada adianta eu pensar sobre mim.

Não sou quando penso. Sou quando ajo. Sou quando toco. Sou meu olfato, minha visão e meu paladar.

Meu pensar deveria me guiar apenas quando coloco minha vida em risco.

Não posso – por exemplo – comer e beber além da conta. No entanto, não devo contaminar o que posso com o que penso.

Meu eu mais profundo não é este que pensa. Sou – de verdade – apenas quando sinto – porque sentir é único.

Não devo me buscar aprofundando em meus pensamentos. Devo me buscar aprofundando naquilo que me faz delirar de tesão.

Sou quando me permito sentir tudo do meu paladar. Sou quando não censuro minha pele de arrepiar de desejo. Sou quando permito que os sons que gosto invadam todo o meu aparelho auditivo. Sou quando não paro de ver porque ver não arranca pedaço de nada e nem de ninguém. Sou quando não me dou tempo no que gosto. Sou quando me permito viver tudo o que me faz subir pelas paredes de tanto prazer.

Não é o pensamento que deveria dominar o corpo. Cabe ao pensar não permitir que o corpo se faça mal. Portanto, só deveríamos trazer a mente nos casos em que corremos o risco de nos perdermos em nosso gozo de viver. Fora isto, viver tudo o que se pode é só o que mais importa.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

QUANDO A MÚSICA ME CURA …

Somos angústia porque vamos envelhecer e temos data de validade. Quem não gostaria de ser eterno?

A angústia nos constitui – no sentido de que não podemos nos livrar dela. O máximo que podemos fazer é tentar colar coisas sobre ela.

Durante muitos séculos, as ciências, a filosofia e a literatura nos ofereceram a palavra como um caminho para tamparmos nossos dramas existenciais. Tanto que parece que já nascemos indo para a escola – e lá quase só aprendemos palavras.

Acontece que a palavra não é o sentimento. Do mesmo modo que a palavra “água” não é o objeto ”água”.

Nesse sentido, a palavra não cobre e nem cola sobre nossas angústias. Precisamos buscar outros envelopes para isto e, do qual, temos que inventar algo – sob o risco de enlouquecermos.

Gosto muito de música. Ultimamente, tenho escutado só canções que me dão muito prazer: canções com ou sem letra.

Ouço sem me ocupar com o sentido do som ou das palavras. É como se eu quisesse a “água” e não mais a palavra “água”. Busco o prazer que determinado som me provoca – e sem qualquer problematização. Busco só os sons que me fazem bem – porque há músicas que me dão vontade de cortar os pulsos. Daí, viajo e me entrego. Escuto a mesma canção varias vezes – até esgotar todo o gozo que ela pode me oferecer.

O mundo não é só esse blábláblá sem fim. Somos racionais demais. Há mais belezas para além de ficarmos só pensando.

Tem muita gente no mundo criando novas linguagens – possivelmente – para as suas próprias angústias.

A própria natureza nos oferece – e de graça – fluxos contínuos de imagens, barulhos, sabores e texturas que nos compensam nesta angústia de que fomos feitos. É só atentarmos. É só ampliarmos nossos horizontes. Ninguém merece viver – o tempo todo – angustiado.

Evaristo Magalhães – Psicanalista