Vivemos querendo fundir o lado que não suportamos naquele que mais desejamos. Doce ilusão!

No entanto, somos lados que não se dialogam, não se tocam e não se absorvem.

A questão é que esquecemos que é o lado avesso que faz o lado direito existir. É o medo da perda que nos faz cuidadosos de nossos amores. A alegria não faria o menor sentido sem a tristeza.

É possível unificar amor com o medo de perder? Não. Essa unificação sempre nos escapará porque é por ela que

QUAL O VERDADEIRO CONTEÚDO DA VIDA?

Muitos acham que ter conteúdo é ser inteligente, rico e bonito. A verdadeira consistência da vida não tem nada a ver com isso.

Curiosamente – em se tratando de existir – quanto mais consistentes achamos que estamos, mais inconsistentes nos tornamos. Melhor, quanto mais inteligentes, bonitos e ricos ficamos, mais próximos ficamos de nossas inconsistências.

A questão é que a verdade que somos nada tem a ver com essa a inteligência, riqueza e beleza que buscamos. Tudo isso só nos leva de volta para o que somos – e que é o oposto disso tudo.

Podemos ter todos os diplomas, todo o dinheiro e toda a beleza do mundo que tudo só nos escancará do que mais consistimos – e que é puro vazio.

Nesse contexto, então, inteligência, riqueza e beleza só fazem sentido se nascerem conectadas do que somos de zero de conteúdo? Sim.

É possível produzir ideias, dinheiro e beleza do nada? Produzimos ou entraremos em pânico quando esse mesmo nada bater em nossa porta.

Evaristo Magalhães – Psicanalista
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POR QUE NÃO CONEÇAMOS PELO QUE NÃO SOMOS?

Sofremos porque separamos tudo. Não é a vida e depois a morte. Não é primeiro o silêncio e depois o som. Não é o escuro e depois o claro.

Não é uma coisa e outra. É tudo dentro de uma mesma coisa – e sem lacuna. São duas palavras opostas dentro de uma mesma palavra – e sem diferenciação.

Infelizmente, não temos uma palavra que traga o contraditório sem tomá-lo como contraditório. Ou seja, não temos uma palavra que tome os antagonismos como parte de uma mesma célula.

Se observarmos atentamente veremos que todo amor é ódio e que toda generosidade é egoísmo.

Tudo é uma coisa só: vida/morte, som/silêncio e claro/escuro.

A questão é como acessar esse mórbido, esse silêncio e esse escuro. Nada sabemos disso.

Tudo traz o seu inacessível – e isso nos perturba exatamente porque achamos que o que acessamos basta para explicar o que existe. Não basta!

Não preciso que ninguém me contradiga: carrego minha própria contradição. Crio o que me opõe no exato instante em que me coloco.

O que não sou não está fora de mim. Não preciso de um agente externo para me destruir. Trago a minha própria destruição.

O que falta não é o que pode ser preenchido. O que falta é o que é impossível. Somos esse impossível. Em tudo há esse impossível.

Acabaríamos com todo o fanatismo no mundo se enxergássemos tudo a partir do impossível de tudo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista
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COMECE SEMPRE PELO SEU PIOR …

Deveríamos enxergar tudo sempre pelo ponto de vista de onde tudo falha.

O meu ponto de vista não deveria ser a ideia que possuo das pessoas, do amor e da sociedade. Não somos só ideia. Somos – também – o que nenhuma ideia cabe.

Os amantes não brigariam se dessem conta de que não existe o amor que tanto almejam.

Os partidos políticos não caminhariam para o autoritarismo se partissem do fato de que é impossível colocar em prática o modelo de sociedade que tanto almejam.

Em tudo há um vácuo, um vazio e um abismo.

Infelizmente, aprendemos que podemos conquistar o amor e a sociedade que sonhamos. Não podemos! É por isso que nos tornamos arrogantes e agressivos.

Precisamos do amor? Sim. Precisamos de um mundo melhor? Sim. No entanto, as gerações anteriores se equivocaram ao nos iludir de que esse amor e esse mundo é possível.

Ninguém nos disse que o amor paradisíaco não existe e que a revolução perfeita é um só um sonho.

Seguramente, não ficaríamos revoltados se partíssemos do ponto de onde tudo se equivoca. Seríamos muito mais equilibrados se entendêssemos que o amor e a militância possuem – ao menos – dois lados: um bonito e outro feio.

Não ficaríamos agressivos se na hora de amar e de lutar por um mundo mais justo, mantivéssemos – ao menos – um pé bem firme do lado feio do amor e da política.

Evaristo Magalhães – Psicanalista
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O AMOR É A NOSSA MAIOR LIVERDADE …

Não adianta escolher só pelo físico, pela conta bancária ou pelo intelecto.

Há uma falta no outro que nenhuma estética, nenhum dinheiro ou inteligência cobre.

Podemos fazer todas as plásticas do planeta, ganhar todo o dinheiro e ter todos os diplomas do mundo. No entanto, nada disso impedirá quem amamos de nos trocar por quem quer que seja.

O amor é essa falta que podemos ser tudo o que quisermos que jamais conseguiremos suprimí-la em quem amamos.

Não é a beleza, a grana e o conhecimento. Com qualquer pessoa que nos envolvermos, nunca estaremos cem por cento seguros do amor dela por nós.

Há uma lacuna entre a nossa aparência e o amor do outro. É essa lacuna que mesmo todo o dinheiro e toda a sabedoria não consegue tamponar. É essa lacuna que nos enlouquece.

Quando uma pessoa se apaixona, não existe nada de material, espiritual ou intelectual que possa impedí-la de viver esse sentimento.

O amor é a nossa maior liberdade!

No amor tudo falta. Nada o preenche. Nada o esgota. Nada toca o amor.

Podemos – no máximo – ecoar, reverberar ou ressoar quem somos no outro. Tocá-lo? Pegá-lo? Tê-lo? Nunca!

Podemos até achar que somos alguma coisa para ele. No entanto – para o seu amor – podemos não significar nada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista
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NÃO SOU NEM DO BEM E NEM DO MAL …

Em tudo há alguma obscenidade. A lei é uma coisa boa? Sim. No entanto, chega uma hora que cansa só obedecer.

Cansa seguir uma mesma dieta e cansa só transar papai e mamãe.

Não deveríamos caminhar em direção a nenhuma verdade. Só a verdade – também – enjoa.

Ao impormos qualquer coisa – seguramente – teremos que nos preparar para a experiência do pior.

Toda pureza leva a alguma impureza. O adolescente promíscuo só se envolve em orgias porque sua mamãe – toda certinha – lhe serve de ponto de exceção, de garantia externa.

Sem perversão nenhum almofadinha se sustenta. Sem os prostítulos as famílias mais tradicionais explodiriam.

Toda objetividade excessiva incita para uma subjetividade desregrada. Desse modo, a melhor saída não é ficar do lado da submissão à lei que – necessariamente – conduz à sua transgressão.

É por isso que não me ligo à nada que se apresenta como verdadeiro. Não quero pagar o preço do risco de enlouquecer. Prefiro habitar o lado onde tudo falha. Prefiro nunca tomar qualquer verdade como absoluta.

Todo extremo – para o bem ou para o mal – é pulsão de morte!

Evaristo Magalhães – Psicanalista
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POR QUE SOU UM PECADOR?

Somos inocentes quando nos apegamos a uma verdade. Não existe a sociedade que sonhamos, não existe o amor que desejamos e, ninguém que morreu, voltou para nos assegurar da existência do paraíso.

Portanto, inocência é viver sob a égide de ideologias, teorias ou crenças que, se as questionarmos, não chegaremos a lugar nenhum. A utopia é um lugar que não existe, ninguém possui um conceito definitivo acerca dos sentimentos e não existe o Deus de Deus.

Somos pecadores quando nos abstraímos de todas as ditas verdades e passamos a enxergar tudo como sendo nada. Ou seja, passamos a construir nossos sentidos – especificamente – a partir do que a vida nos apresenta em toda a sua imprevisibilidade.

Inocente é aquele que se diz dono da verdade. Pecador é aquele ateu de todas as verdades. O inocente – seguramente – terá que se haver com a depressão porque não existe, na prática, a verdade que ele tanto idolatra.

O pecador nunca entra em depressão porque sabe o que fazer com sua angústia – uma vez que a verdade que ele constrói só vale para a situação que ele acabou de vivenciar. Ou seja, o pecador não teme o nada.

O inocente vive de camuflar sua existência com suas supostas verdades. É por isso que – dificilmente – ele retorna igual depois que entra em desespero.

O pecador encara a contingência de sua existência. Ele nunca cai em angústia porque esta é uma constante em sua vida. Ele opta por ir enfrentando a vida em cada uma de suas complexidades. Para ele, o sentido não é anterior ao acontecimento. Par ele, o sentido é construído a partir da singularidade de cada situação.

Eu prefiro ser pecador!

Evaristo Magalhães – Psicanalista
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