QUAL A GRANDE VERDADE DO AMOR?

O que é mais verdadeiro no amor: o diálogo ou a cama? A cama. Por que? Porque é impossível medir a veracidade de uma declaração de amor. 

Ninguém consegue saber a intenção exata por detrás de qualquer diálogo. 

Nem mesmo o olhar é exato. Hoje, gostamos muito do que vemos e amanhã pode ser que não. 

Agora, na cama, ninguém se engana quanto – por exemplo – ao gosto de determinada boca. 

Não é possível mentir – para si – sobre o que se sentiu de uma pegada. 

O sexo é oito ou oitenta: ou é bom ou não é.

A frustração não está na mente e, sim, no corpo. 

A verdade do amor não é o que se diz: é o que se sente. É o corpo-a-corpo. 

O cheiro não é uma questão de interpretação. O olfato é indubitável: gostamos ou não – e pronto. 

Quanto à personalidade, até esperamos para conhecer um pouco mais. Agora, quanto ao sexo, não há meio termo: quando não há química, não adianta insistir. 

A cama é a verdade do amor. Todo o resto se pode ludibriar. Não seria a sedução uma espécie de forçação de barra? 

Nenhuma estética, virilidade, intelectualidade ou conta bancária se sustenta quando não se toca a verdade do corpo do outro. 

No amor, não é falar, exibir, contar vantagens e fazer caras e bocas que conta. 

Ninguém consegue mudar – em si – o cheiro, o toque e o gosto que sentiu de alguém. 

O corpo não mente. Ele tem linguagem própria. Ele já vem programado. Ele é a nossa marca digital. 

Até gostaríamos de amar porque a pessoa é bonita e inteligente. No entanto, até mesmo a mente mais brilhante se curva quando o corpo dessa mente não faz outro corpo acontecer. 

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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O QUE NINGUÉM QUER SABER?

Todo mundo – para ser – precisa se associar a alguma coisa: um gênero, um nome, uma cor, uma cidade, uma profissão etc.

Só conseguimos ser por conceitos, imagens, adendos e próteses.

Nunca conseguimos nos dizer por nós mesmos.

Ao nos descrevermos, olhamos para o nosso entorno. Daí, desembestamos a dizer – das coisas – como se estivéssemos dizendo de nós mesmos.

Só conseguimos ser por analogias e metáforas. Somos um amontoado de nomes e de coisas.

Temos mania de tatuar ideologias, doutrinas e objetos em quem somos.

O que tem a ver meu nome comigo? O que tem a ver a palavra maçã com a fruta? Nada.

Somos cheios de vícios para nos fazermos existir. Tem quem só consegue existir por compulsão por compras. Tem quem cuida do carro melhor que da esposa. Tem quem enlouquece diante da possibilidade de perder seu amor. Tem quem fica cego por seu mito.

O que aconteceria se tirássemos todos esses adesivos de nós mesmos? O que sobraria se eliminássemos todos os nomes, pensamentos e conceitos que utilizamos para nos auto-referir?

Sobraria a verdade sobre nós mesmos? E é disso que ninguém quer saber.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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SÓ POSSO TOMAR EMPRESTADO O AMOR DE ALGUÉM …

Quando compramos uma coisa, aquilo é nosso: ninguém pode nos tomar.

Para as coisas que compramos, podemos pensar assim. Agora, para as pessoas que amamos, não.

Não podemos ter ninguém. Só podemos nos servir das pessoas.

As pessoas nos são emprestadas porque por mais que as queiramos como nossas, não há quem se encaixe – perfeitamente – em quem somos.

As pessoas chegam – apenas de vez quando – para o nosso prazer porque somos muito mais do que o outro pode nos dar.

Há o que somos e que mesmo que tivéssemos o mundo inteiro aos nossos pés, nem mesmo assim nos sentiríamos preenchidos.

Há aqueles que acham que possuem e há aqueles que se contentam em ter apenas por momentos. Os primeiros são loucos, fanáticos e psicopatas. Os segundos, são os ditos normais.

Estamos por aqui usufruindo de tudo – e sabendo que teremos que devolver.

Nossa qualidade de vida dependerá da forma como nos colocaremos diante desse fato.

Não passará ileso aquele que acha que tudo pode. Sofrerá menos aquele que se reconhece faltoso quando a falta maior bater à sua porta.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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DEUS NÃO PODE SER TÃO IDIOTA …

Deve ser maravilhoso poder ter alguém à sua disposição vinte e quatro horas por dia: alguém que não se irrita, não se cansa, nunca te diz não, não te limita, não te agride, não te culpa, não te incomoda e não te angustia.

Deve ser sensacional poder ter alguém que te ama incondicionalmente, que é todo compaixão e perdão, que está sempre de braços abertos para te receber, que está o tempo todo disponível para atender suas demandas, que está disposto a te dar as mãos sempre, caminhar junto, te dar a direção e te proteger de todo mal.

Deve ser mesmo divino poder ter alguém sempre disponível para nunca queixar dos seus gritos, nunca achar tedioso seus cânticos, nunca cansar de suas lamúrias, nunca se irritar com seus erros, nunca te achar cansativo, enjoado, chato e insistente demais para com suas vontades.

Deve ser bom demais você ter alguém que acha bonito suas riquezas e suas ostentações, seus palácios e templos, carrões, mansões e viagens, quando tudo isso adveio do uso de seu nome.

Será que seria bom ter um Deus que te livra de todas os seu pecados, que não te devolve suas falhas, que não te responsabiliza pelos seus erros, que não te faz pensar em seus defeitos, que nunca te permite desenvolver sua independência, que não te deixa à vontade para escolher seu próprio caminho, que não te possibilita amadurecer, enfim, que não te permite ser uma pessoa autônoma, livre e capaz de fazer suas próprias escolhes?

Realmente, deve ser ótimo, porém esse Deus nunca te tornará um ser humano verdadeiramente humano!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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