QUANDO NÃO ADIANTA LUTAR CONTRA …

 

É óbvio que a casa ficará limpinha e cheirosinha quando dermos nela uma boa faxina. É quase certo de que emagreceremos se fizermos uma boa dieta. Nada melhor que um bom agasalho nas noites de frio ou de uma cerveja estupidamente gelada em uma tarde de muito calor.

Há o que vale a pena lutar. Há o que podemos vencer. Sim, a vitória existe.

No entanto, não podemos transpor o sucesso da faxina sobre a sujeira, da dieta sobre a gordura, do edredom sobre o frio e do gelado sobre o calor, para outros aspectos de nossas vidas.

Penso que sofremos, exatamente, porque somos ingênuos demais ao fazer isso.

A lógica disso pode não servir para aquilo. Quem dera se a facilidade de vencer o calor com um sorvete de chocolate pudesse ser levada para vencer, por exemplo, a perda de um grande amor que se foi.

Talvez, seja por isso mesmo que tanta gente se arvora em escrever sobre o amor.

Há o que nos é invencível. Talvez, a vitória da casa limpinha, do corpo esbelto, da delicia de se sentir todo acolchoado ou refrescante do incômodo do suor, tenha sido nos dado, exatamente, para nos compensar disso que toda luta será em vão.

No entanto, somos vaidosos e arrogantes demais para não querermos uma vida inteira parecida como quando atingimos tudo o que mais gostaríamos.

Daí, começamos a batalha. Nossa ilusão diz que podemos e a realidade diz que não podemos.

Vamos modificando as nossas armas na medida em que os “nãos” vão aparecendo. Não aceitamos que estamos envelhecendo. Não aceitamos que terminaremos um dia. Adentramos no mundo da fantasia – que a mídia nos cria – de que podemos vencer o invencível. Doce ilusão! Não venceremos!

No entanto, nessa nossa luta vaidosa, o que era luta pela vida passa a ser pela morte. Não creio na felicidade dos muito poderosos. Creio que aqueles que prezam demais pela beleza, no fundo, é porque se sentem infelizes demais com suas imagens.

Há uma derrota – em nós – que nos é invencível. Tentar lutar contra, só faz fazê-la ainda mais forte e mais presente. Melhor é tentar carregá-la sem saber de que se trata e com alguma alegria.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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O QUE É A DEPRESSÃO?

 

Nosso psiquismo é composto de ideias, emoções, projetos e fantasias. É ele que nos faz querer viver, olhar e seguir a vida.

Não sabemos a origem desse psiquismo. Sequer sabemos em qual local ele se aloja em nosso interior. Freud disse – sem conseguir provar – que ele tem um pé no biológico.

Talvez, se ele fosse biológico, ele seria menos inconstante e menos irregular.

Penso que nosso psiquismo não é da nossa natureza. Penso nele como um artifício: algo adquirido do meio em que vivemos. É por isso que ele pode ser depredado. É por isso que pode se depredar.

A psique é a vida. Não a vida no sentido biológico. Mas a vida no sentido de amar, querer continuar, sonhar e acreditar. É por ela que nos apegamos aos sabores, sons, texturas, cheiros e paisagens. Sem ela, paralisamos. Sem ela não temos motivação para comer, beber, amar e gozar a vida.

Sem movimento psicológico, não sobrevivemos. Sem o psíquico, morremos.

O pânico é – exatamente – essa sensação de perda do psíquico. É a sensação de estar fugindo do controle de si e adentrando em um mundo – completamente – estranho a si. A depressão é este esvaziamento de si.

Não sabemos o que leva o psíquico a se depredar. O médicos dizem que a causa é química. Os psicólogos dizem do ambiente.

Em contrapartida, não existe injeção de conteúdo psíquico para ser aplicada na mente dos depressivos. Também, não existe ninguém que seja psicologicamente tão forte e capaz de ser só vida a vida toda.

Somos meio que equilibristas da vida. Ora estamos mais para lá e ora mais para cá. A questão é não se deixar transbordar demais nem para um lado e nem para o outro. Contudo, quando o prato da balança da pulsão de morte estiver mais para cima, o negócio é não desesperar. Afinal, precisamos experimentar – ainda que de vez em quando – isto que nos é inevitável. Chegará uma hora em que nem mesmo o mais estruturado de todos os psiquismos do mundo nos salvará.

Houve um tempo em que víamos alguma humanidade na experiência de esvaziar-se de si mesmo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NÃO GOSTO DOS ANTIDEPRESSIVOS?

 

Ninguém faz nada por acaso. Tudo tem algum propósito. Não vamos à padaria apenas para comprar pão. Precisamos do alimento, senão morreremos.
Ninguém gosta de viajar por um acaso. Viajamos porque se não movimentarmos entramos em depressão.
Ou seja, tudo o que fazemos é para não adentrarmos em um estado de letargia física, intelectual ou emocional.
Não querer morrer de fome é uma decisão psíquica de amor à própria vida. Nenhum medicamento cura a falta de amor próprio.
Tudo o que sei de mim e tudo o que o que sinto por mim é composto de imagens, ideias e falas que escolhi para me referir. Portanto, todo mundo possui algum saber sobre si. É ele que é determinante no modo como cada um lida consigo, com seu corpo, com sua aparência, ideias, emoções e ações.
É por isto que não gosto dos antidepressivos e ansiolíticos. Com isto, não estou dizendo que não sejam importantes para casos bem específicos.
Por que não gosto de antidepressivos e ansiolíticos? Porque me retardam. Quando me dopo, neutralizo meu poder de construir um saber sobre mim. Outro dia encontrei uma pessoa que se refere ao seu sonífero com a intimidade de “meu Rivotril”. Tenho um conhecido que diz que Rivotril deveria ser pingado na rede de água que abastece todos os domicílios urbanos.
Por que tanta gente prefere os psicotrópicos no lugar de construir um saber sobre si?
Não é mesmo fácil fazer um enfrentamento de si. Os saberes são muitos. As palavras são infinitas. É muito difícil juntar palavras, formar frases e criar conceitos que possam dirigir quem sou.
No entanto, nenhum saber sobre si pode ser comprado para ser ingerido. Todo conhecimento de si é um autoconhecimento de si: ninguém pode fazer por ninguém. É de cada um.
É por isto que muitos preferem se entupir de drogas: o efeito é imediato e dispensa o usuário de se ver no que lhe é insuportável de si.
No entanto, não saber de si é se acovardar de si. Também, usar uma muleta artificial para se sustentar na vida, não resolve. Não saberemos o que nos irá acontecer daqui a pouco. Não existe um medicamento específico para cada dor de viver. Deve ser por isto que muitos estão desistindo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista