SOBRE A ÉTICA NA SOCIEDADE ATUAL

Nós, psicanalistas, precisamos falar menos e escutar mais o mundo. Tenho tentado pensar menos o mundo a partir de mim, para tentar pensar mundo a partir do próprio mundo. Não sou relativista. Não gosto desse discurso do vale tudo ou do tudo normal. Portanto, aceito tudo, com a condição de que não faça mau a ninguém. Tenho a ética – no sentido do bem – como condição de possibilidade para qualquer coisa. Não vejo nenhum problema em alguém decidir tatuar ou cobrir todo o corpo de piercing. Preocupa-me saber a qualidade do profissional que foi escolhido para tal procedimento. Acho fundamental diferenciarmos – hoje – usuário de dependente químico. Não vejo a menor possibilidade de impedirmos, quem quer que seja, de usar a droga que quiser. Acho mais prudente, na atualidade, ao invés de reprimir, tentar trabalhar mais no sentido do fazer com responsabilidade. Não vejo nenhum problema em quem queira mudar de sexo quantas vezes desejar. Chamo atenção, para que isso não seja feito sem o acompanhamento de uma equipa multidisciplinar. Defendo e defenderei a liberdade. Não podemos é colocar em risco o nosso direito de ser livre. Posso fazer: não posso é me privar do direito de fazer. Posso fazer com a condição de que eu continue fazendo. Se continuo fazendo é porque meu direito à vida permanece preservado. Nesse momento do mundo, penso que é esse o direito que não podemos abrir mão em hipótese alguma.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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QUEM DISSE QUE NÃO PODEMOS SER FELIZES SEM A PRESENÇA DE ALGUÉM?

Até bem pouco tempo, estávamos certos de que podíamos contar com o outro como ponto de calmaria para a nossa solidão. Nesse tempo de individualismo em que vivemos, estamos tendo que reinventar outros meios para recobrir o nosso vazio interior. As pessoas não estão mais dispostas a recobrirem ou serem recobertas pelas outras. Temos que ver o que vamos fazer conosco – sem o outro. Precisamos aprender a nos preencher em nossa solidão. No silêncio da ausência de alguém, precisamos aprender a escutar essa ausência – e sem pânico. Uma via, talvez, esteja em nos redescobrirmos, não mais pelo outro, mas pelas coisas da natureza. Podemos ressignificar a falta de uma pessoa com o som dos pássaros, o ar fresco, o sol que brilha e o dia que amanhece. Sem o abraço de alguém, podemos nos sentir confortados pela cidade com suas coisas, suas ruas, casarões, praças e jardins. Sem a alegria da presença de alguém, podemos despertar a nossa alegria ouvindo uma boa música, vendo um bom filme ou lendo um bom livro. Podemos – também – explorar os sabores do mundo com seus restaurantes, padarias, bares e cafés. Enfim, há outras pulsações. Na falta do outro, um mundo infinito de paisagens, cheiros e gostos se abrem para o nosso deleite. Até então, achávamos que o outro era tudo. Na ausência de alguém, redescobrimos outras presenças. Redescobrimos que podemos nos comunicar com o nosso entorno de outras formas. Se até bem pouco tempo o outro era tudo, talvez, agora, estejamos aprendendo a apreciar a vida para além da necessidade de ter alguém. Talvez, não se trate de um puro individualismo – no sentido patológico desta expressão. Talvez, seja apenas uma questão de experimentar o sentido de viver de outros modos. Talvez, estejamos apenas dando um tempo do outro para experimentarmos outros outros.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

PRECISO VOLTAR A GOZAR COMIGO …

Minha mente nunca acerta ao tentar comandar meu corpo. Minha mente nunca está em consonância comigo. Minha mente quer sempre mais de mim. Minha mente me faz angustiar porque estou envelhecendo, quando eu deveria me alegrar com isso. Minha mente me faz sofrer por amor, quando sempre quer muito mais amor do que o amor que o outro pode me dar. Minha mente me faz sentir culpado porque sou mortal, quando nada é possível de ser feito sobre isso. Meus medos são todos criados por mim – que insisto em me negar o inegável. Minha mente é um misto insuportável de desejo e remorso. Minha mente me inferniza. Minha mente me culpa, me tensiona, me angustia, me desespera e me desassossega. Preciso silenciar certos pensamentos. Preciso refletir menos e sentir mais. Preciso ouvir mais o meu corpo e menos o meu intelecto. Preciso deixar de interferir no funcionamento natural dos meus sentidos. Preciso libertar meu corpo das amarras impostas por uma lógica que nunca existiu no mundo concreto de ninguém. Preciso voltar ao meu natural. Preciso parar de alterar o fluxo espontâneo da minha respiração. Meus ombros precisam voltar a ficar relaxados. Preciso me livrar dessa angústia que aperta o meu peito. Tenho que parar de interferir no meu sono, quando meu corpo quer descansar e insisto que ainda preciso permanecer acordado para chegar a lugar nenhum. Preciso deixar meus braços, pernas, pés, quadril, cabeça e pescoço livres – sem constrangê-los em suas naturalidades. Preciso voltar a me tocar como uma criança que se toca sem qualquer julgamento moral. Preciso deixar fluir a sensação própria de sentir meus pelos, minha pele e meu sexo. Preciso me redescobrir sem esse exagero de racionalidades e de moralidades. Preciso deixar de ser e voltar a me ter. Preciso mudar o trajeto de mim: não mais pelo que penso para o que sinto, mas pelo que sinto para o que penso. Preciso parar de desfazer do meu corpo. Minha mente tem mania de me dizer que sou incompleto: não sou. Preciso parar de pensar que necessito de adendos para gozar de mim. Posso gozar comigo o quanto eu quiser e do que eu quiser de mim. Sou meu: possuo-me. Preciso usufruir tudo de mim enquanto a vida não me tira de mim. Tudo o que penso, nunca é. Meu corpo é só o que – de fato – nunca escorrega de mim. Sou o que sinto.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

CONTRA A MERITOCRACIA NO BRASIL …

Conheço um número considerável de pessoas – dentre as quais me incluo – que não acredita que duas crianças, uma moradora da favela, que esteja nascendo agora e a outra, moradora de um bairro nobre, que também esteja nascendo agora, possuam as mesmas condições para serem o que quiserem no Brasil. Ou seja, existe um número considerável de pessoas que não acredita na meritocracia – mesmo sabendo das exceções de pobres que conseguiram prosperar na vida. Desse modo, entendemos como sendo uma questão de apropriação indevida da riqueza, o fato de os muito ricos ocuparem os melhores cargos, as melhores escolas, os melhores restaurantes e os melhores hospitais. Esses – muito ricos – insistem – sustentados por uma mídia não menos muito rica – que trabalharam demais para chegar aonde estão. O fato é que este argumento é facilmente desmontado através do estudos da história da acumulação da riqueza por essas famílias no Brasil. Sendo assim, ao questionarmos essa ideologia do mérito, tornamo-nos pessoas não gratas por esses grupos dominantes. Queremos um país menos desigual, logo, queremos uma melhor distribuição da riqueza de quem, muito pelo contrário, quer é continuar concentrando ainda mais esta mesma riqueza. E onde estamos? Em geral, nas universidades. E o que podemos? Convencer o miserável de que ele não é culpado por sua desgraça e que não será apenas por seu esforço pessoal que prosperará na vida. Ou seja, ele precisará lutar politicamente. Ele precisará modificar as relações de poder econômico neste país tomado por poucos. Nunca na história do Brasil esse absurdo de ideologia de mérito foi tão propalada como agora. Acho uma inocência alguém pensar que a invasão pela polícia na UFMG tenha como mote principal o combate à corrupção. Parece que existe toda uma campanha para justificar a privatização desse nosso maior bem público e para desmontar todo o pensamento crítico que – não interessa nem um pouco à esses grupos – e que é vigorosamente produzido ali. Fascistas não passarão!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE ESCREVO?

Pela escrita não esqueço o que – talvez – eu esqueceria se só falasse. Posso escrever sobre o que sou e sobre o que não sou. A escrita – jamais – me deixará esquecer o que a realidade quer me iludir. Se escrevo sobre a minha velhice, isso ficará para sempre. Não posso deixar de lembrar de que sou mortal: por isso escrevo sobre a morte. Tudo cabe na escrita. Posso escrever sobre o que existe e que todo mundo teme. Posso escrever – por exemplo – sobre o desamor. Posso registrar minha angústia. Posso escrever sobre a solidão, o pânico e a ansiedade. Isso me é importante, porque posso voltar e reler o que escrevi – uma vez que é certo que serei desamado. Vou angustiar – posso fazer a mesma coisa com o que escrevi sobre a angústia. Pela escrita, posso comunicar coisas que não teria coragem de comunicar falando. Tem coisa que tenho vergonha de falar, mas não tenho vergonha de escrever. Algo parecido com o artista que não tem vergonha de representar ou de pintar o que pensa e o que sente. A escrita é menos direta que a fala. Na verdade, o que mais gosto na escrita é a possibilidade de registrar o que penso. Escrever para mim é como tatuar em mim quem sou. É como se eu tivesse que me carregar para o resto de minha vida. Sei que posso ser lembrado no futuro de algo que escrevi na minha juventude. Se escrevo sobre a dor de viver, a escrita assegura-me de que pensei sobre isso em algum momento. Gosto de voltar no que escrevi: posso ver como eu era, o que sentia e o que pensava. Pela escrita documento quem sou e quem não sou. Escrevo para tentar saber de mim. Escrevo para não esquecer de mim. Escrevo para assumir quem sou. Escrevo para tentar me responsabilizar de alguma coisa. Escrevo para me fazer existir sem poder me modificar – uma vez que alguém pode guardar o que escrevi. Escrevo para ver se consigo cravar alguma coisa de mim em mim. Escrevo para tentar encontrar algo que me seja próprio.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE LEVA UMA PESSOA A SÓ USAR AS REDES SOCIAIS PARA POSTAR FOTOS DE SI?

O que leva uma pessoa a só usar as redes sociais para postar fotos de si? Não seria uma tentativa de buscar um certo conforto psicológico através do olhar alheio? É impressionante como importa para essas pessoas a quantidade de curtidas e de comentários que sua imagem obteve. Há várias maneiras de lidarmos nossos problemas emocionais. A imagem não é a melhor delas – mesmo porque vai chegar uma hora em que não teremos tantos atrativos físicos para chamar tanta atenção. O tempo é rei. O tempo passa para todos. Quem vive da imagem agora, provavelmente, terá, no futuro, que destruir a memória da velhice para viver uma memória de jovem em um corpo de velho. Gozamos com o olhar. Dizem que comemos com olhos. Quem nunca se sentiu devorado por um olhar qualquer? O problema é que tudo do olhar é efêmero. Ninguém vê a mesma coisa duas vezes do mesmo jeito. Tudo do olhar muda o tempo todo. Por isso, que para além do físico, é fundamental o desenvolvimento de outras formas de sedução. A inteligência é – sem dúvida – a mais interessante delas. O pensamento ninguém nos tira. O conhecimento é único: ninguém pensa igual. Quando jovem, somos olhados e admirados pelos nossos dotes físicos. Querem nos pegar e nos devorar. Não podemos levar a beleza física às últimas consequências – mesmo porque as últimas consequências vai numa direção contrária à da beleza física. Há outras belezas? Sim. Elas estão nas vitrines de um shopping? Não. Elas estão nos bíceps das academias? Não. Elas estão no Instagram? Não. Onde elas estão? Dentro de cada um: ainda não encontraram a fonte da juventude. É preciso começar a buscar o que o tempo não destrói. O conforto pela imagem passa. O conforto pela inteligência é para a vida toda. Não poste para ser visto: poste para ser lido. Não se deixe ver: deixe-se ler. Não poste o que você tem por fora: poste o que você tem por dentro. Mais ideias e mais sentimentos, por favor! Menos imagem e menos produção. Mais verdade e menos mentira, por favor!

Evaristo Magalhães – psicanalista

O AMOR É UMA DOENÇA?

Damos o que temos para seduzir o outro para o que não temos. Fica tudo bem enquanto damos o que temos. O problema é quando damos com a intenção de querer o que não temos. Amamos interessados no que o outro pode dar para o que não possuímos. Apaixonamos pelo que vemos, ouvimos, sentimos e tocamos no outro. O que vemos, ouvimos, tocamos e sentimos não é tudo em alguém. Todo mundo é marcado por algo para além do que seus sentidos demonstram. O olhar pode ser lindo. A fala pode ser inteligente. O corpo pode ser delicioso e os sentimentos os mais sinceros do mundo. Na verdade, tudo isso é um jogo. Amamos não pelo que sabemos de nós mesmos. Amamos pelo que não sabemos. Queremos o outro onde não somos. Qualquer relacionamento só dará certo na medida em que um for capaz de suportar o que do outro não tem solução. É por isso que tudo vai e volta. Ninguém briga por causa de uma toalha molhada em cima da cama. A toalha é só um pretexto para dizer da limitação do outro em resolver o que não sei o que fazer de mim. Quero o outro para o que me falta saber fazer comigo. Se eu soubesse, não precisaria dele para conviver. O que sustenta todo amor é uma doença. O meu problema vai muito além do outro que me acompanha. No entanto, cismo que posso ser salvo pelo seu amor. Amar não deixa de ser uma forma de covardia para consigo mesmo. As pessoas não deveriam olhar entre si como se tivessem salvação. Não deveríamos olhar para as pessoas vorazes pela solução do nosso desespero. Primeiro amar quem sou e quem não sou. Se amo quem não sou, nada me faltará. Nesse contexto, faz algum sentido amar? Não faz sentido amar pelo que te falta. Deve haver outros sentidos para o amor que não esse amor de carência.

Evaristo Magalhães – Psicanalista