NINGUÉM SABE DE SI …

Tendemos a achar que sabemos quem somos quando temos clareza das nossas ideias, dos nossos sentimentos e das nossas reações. Achamos que nos descobrimos quando definimos a roupa que gostamos, nosso perfume favorito e qual profissão queremos seguir. Muitos se acham autênticos apenas por suas posições políticas, artísticas, religiosas e morais. Não somos no que sabemos sobre nós mesmos. Somos depois de todos os saberes que construímos sobre nós mesmos. Se soubéssemos sobre nós mesmos, não angustiaríamos. Não sofreríamos de ansiedade e não desenvolveríamos nenhuma doença psicossomática. Sofremos – exatamente – porque tememos a nós mesmos. Sofremos, para fugir de nossas verdades. Quando acho que sei quem sou – no fundo – estou é me acovardando de mim mesmo. Não saberemos quem somos tentando saber quem somos. Nenhuma palavra nos toca. A palavra é como a borda de um vaso que circula um vazio. Não sabe de si quem pensa sobre si. A religião mente sobre nós. A filosofia também. A ciência não menos. Não temos que buscar saber quem somos. Temos que carregar quem somos. Carregar sem querer saber. Carregar o que pensamos, sentimos e o que nenhum pensamento e nenhum sentimento pode fazer qualquer coisa por nós. Quanto à quem somos, não podemos resolver no campo do saber. Só podemos resolver no campo do fazer. Espera-se que façamos bem feito com isso.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

SOBRE PESSOAS VICIADAS EM PENSAR…

Com quem estou quando não tenho ninguém comigo? Com quem converso quando ninguém está falando comigo? Eu deveria estar só comigo quando não tenho ninguém. Eu deveria estar em silêncio comigo quando ninguém fala comigo. Por que invento pessoas mesmo quando não tem nenhuma pessoa comigo? Por que converso com as pessoas mesmo quando não tem nenhuma pessoa conversando comigo? Por que não suportamos o silêncio? Por que não suportamos a solidão? Não temos paz porque não queremos. Somos as nossas perturbações. Nunca estamos só com o que temos. Estamos sempre inventando pessoas e situações. Carregamos nossos colegas de trabalho mesmo quando não estamos trabalhando. Agora que poderíamos usufruir de tranquilidade, estamos nos mortificando em problemas que sequer sabemos se irão acontecer. Somos viciados em pensamento. Somos viciados em pessoas. Somos viciados em problemas. Agora que poderíamos experimentar a leveza, nos abarrotamos de preocupações. Se o agora é sem ninguém, enchemos a nossa mente de gente do presente, do passado e do futuro. Não conseguimos parar de pensar mesmo quando ninguém está conosco nos cobrando de pensar. Não conseguimos parar de pensar mesmo sabendo que agora não é a hora de pensar. Não contentamos com as companhias que temos. Não contentamos com os objetos do nosso quarto. Não contentamos com o calor do sol. Com o frescor da noite. Com os barulhos da natureza. Com a nossa própria companhia. Somos viciados em gente. Somos compulsivos por problemas. Sentimos angústia mesmo quando poderíamos não ficar angustiados. Sentimos ansiedade mesmo quando poderíamos não ficar ansiosos. O pensamento é angustiante. O pensamento é ansioso. O pensamento não tem fim. Não há o pensamento do pensamento. Não sabemos deixar o pensamento para a hora do pensamento. Não nos damos sossego. Não nos desligamos. Não nos damos a paz.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É A VIDA PARA A PSICANÁLISE?

Somos angústia – porque vamos envelhecer e morrer. Somos ansiedade – porque nos prometeram o impossível da fonte da juventude e da vida eterna. Portanto, somos imaginação, razão, angústia e ansiedade. Sonhamos e buscamos a verdade pela filosofia e pela ciência. A verdade não existe. Não é possível encontrar um nó entre o sonho, a razão e o nada. Mesmo assim não desistimos de encontrar. Por isso angustiamos – porque vivemos em um círculo ansioso entre sair e voltar para angústia – o tempo todo. Desse modo, a verdade da vida não é sonhar e nem pensar. Criamos a angústia e a ansiedade quando resolvemos fantasiar e raciocinar. Achamos que vamos enlouquecer se pararmos de sonhar e de refletir. Não é bem assim. Qual seria então a verdade da vida para a psicanálise? A verdade da vida é esquecer. Só os desmemoriados são felizes – porque não povoam suas memórias de lembranças e de sentimentos insolúveis. É possível não pensar e nem sentir o que não tem sentido? Sim. Os orientais sabem muito bem como fazer isso. A solução não é buscar resposta sobre o que não tem resposta. A solução não ficar indo e vindo sobre o que nada podemos. Pensar é infinito. A solução é focar em um ponto da mente sem antes e nem depois, sem causa e sem consequência, sem questão e sem porquê. A vida para a psicanálise é o silêncio. A vida para a psicanálise é a contemplação do nada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É O TESÃO?

Tesão é confiança. É entrega. É se permitir que o outro te toque com os olhos, com o olfato, com as mãos e com a boca – e em todos os lugares. É não determinar o tempo. O outro pode o tempo que quiser em um ponto do seu cóccix. Pode ficar o tempo que quiser na menor dobra da sua virilha. Pode só ficar olhando. Pode só ficar cheirando. Pode só ficar lambendo. Pode tudo ao mesmo tempo. Transar é se deixar sentir pelo tesão do outro. Não escolha o êxtase. Não determine a ordem. Deixe fluir. Não importa o lugar do corpo. Não é a mão que tesa. É o gozo da mão que enlouquece. Repare o olhar. Sinta a energia. Repare o tremor dos lábios. Repare a voracidade da língua. Sinta a energia. Repare nos poros. Repare o pelo arrepiado. Toque seu pelo no pelo arrepiado do outro. Solte-se. Sinta tudo. Permita-se. Libere-se. Resolver-se é esquecer-se no outro. Resolver-se é se perder até no avesso do outro. O tesão é. Não é feio ou bonito. Existe o tesão. Ele é a regra. Não coíba o tesão. Não interrompa o tesão. Não repare no olho. Repare no tesão do olho. Não repare as mãos. Sinta o tesão das mãos. Não olhe para a língua. Olhe para o tesão da língua. Transar é transcender. Transar é ir além. O tesão não é uma coisa. É para sentir. Não é só da biologia. É da emoção. Da inteligência. Do sentimento. Da alma.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE A SOLIDÃO NUNCA É A MELHOR SOLUÇÃO?

Sozinhos ficamos mais expostos ao que nos desespera. Não sabemos tudo. Não temos tudo. Não podemos tudo. Não somos tudo. É o que nos angustia. É o que nos faz pensar bobagens. A presença de alguém é sempre um alento. Conversamos. Distraímos. Rimos. Lembramos. Sonhamos. Planejamos. Faz mais sentido preparar um café e uma comidinha quando temos uma companhia. A energia da casa sempre melhora quando alguém vem nos visitar. A presença de alguém nos ajuda a burlar as tristes certezas da nossa existência. Ninguém é igual. Cada um é uma novidade para as nossas melancolias. É por isso que a companhia de alguém ainda é o melhor antídoto para as nossas mazelas de viver. Comer nos dá prazer. Beber nos dá prazer. Porém, fica muito melhor comer com alguém contando um caso. Beber com alguém contando uma piada. Sem alguém, a dor de viver é mais insuportável. Não há sentido na solidão. Podemos até fazer sem ninguém. No entanto, com alguém temos ao menos mais uma opinião. Com alguém existe a possibilidade da diferença. Com alguém existe a possibilidade de algo novo. Com alguém existe a possibilidade da mudança. Precisamos refletir sobre a nossa solidão. Por que não temos ninguém conosco? Por que nossos amigos não nos procuram? Por que as pessoas não querem a nossa companhia? Será que nossa presença não estaria mais jogando para baixo que para cima o sentido da vida das pessoas?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

DE QUEM É A CULPA PELO SUICÍDIO?

Precisamos ser plurais porque a verdade não existe. Ninguém está seguro. Ninguém está salvo. Nem mesmo os religiosos estão certos de suas doutrinas. Na ausência de um universal, temos que pluralizar. Se os adultos não sabem sobre si, como podem exigir que as crianças e adolescentes o saibam? Há um vazio. O que vem depois de Deus? É por isso que tantos surtam. Querem nos impor como se fosse completo. Não é. Há lacunas. Há mais perguntas que respostas. Se não existe, não podemos impedir que cada um invente-se sobre o que não tem sentido. Não dá para viver de ilusões. Não dá para viver de mentiras. É por isso que tantos estão desistindo. Não fomos ensinados para a criação. Não somos respeitados em nossas criações. É só na medida em que cada um cria o sentido de si que o outro pode montar a sua própria bricolagem existencial. Mesmo assim não será completo. É por isso que não podemos barrar ninguém de recomeçar no ponto de seu próprio limite. Não importa a forma. Importa é que as pessoas continuem suas existências. Pode ser pelo corpo. Pela arte. Pelo intelecto. Pelo sexo. Pela rebeldia. Por qualquer coisa que faça com o que o indivíduo não perca seu nó com a vida e com o mundo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE VOTO HADDAD?

1 – Pela renegociação da dívida pública de três trilhões de reais com o sistema financeiro.

2 – Pelo fim do cancelamento do bolsa família para mais de cinco milhões de beneficiados.

3 – Pela revogação da PEC que congelou os gastos públicos por vinte anos.

4 – Pela revogação da Reforma Trabalhista que executou o desmonte de direitos conquistados ao longo de quase cem anos pelos trabalhadores.

5 – Pela revogação da Lei da Reforma do Ensino Médio que empurra os jovens da periferia para carreiras de subemprego.

6 – Por sete milhões de famílias que ficaram sem casa com o fim do Programa Minha Casa Minha Vida.

5 – Por vinte milhões de brasileiros que ficaram sem acesso a medicamentos básicos com o fim do Programa Farmácia Popular.

6 – Por vinte e cinco milhões de jovens que estão fora do ensino superior com a suspensão de novas vagas para o Prouni.

7 – Por treze milhões de pessoas fora da escola com o fim do Programa de Combate ao Analfabetismo.

8 – Por dezessete milhões de crianças que não terão acesso a atendimento odontológico com o fim do Programa Saúde Bucal.

8 – Pelo combate ao assassinato de mulheres. Uma mulher é assassinada no Brasil à cada uma hora.

9 – Pelo combate ao assassinato de LGBTs. Um LGBT é assassinado por dia no Brasil.

10 – Pelo combate ao extermínio da juventude negra. Um jovem negro é assassinado no Brasil à cada vinte e três minutos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista