SOU DE VERDADE …

quando

fico

sem

palavras

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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A RESPOSTA É DE CADA UM…

Do mesmo modo que encontro um anel que se encaixa em meu dedo, preciso encontrar uma palavra que se encaixa – minimamente – nos meus infortúnios existenciais.

Entrar em pânico, ficar angustiado ou ansioso, não deixa de ser um tipo de anel – meio enferrujado – que fazemos com nossos enigmas.

Acho que é esta a serventia de um bom divã. Me propiciar traduzir quem sou. Não me traduzir em qualquer palavra. Mas, em uma palavra que me traga naquilo que nenhuma palavra que tenho disponível consegue me trazer.

Se fôssemos as palavras que aprendemos, não precisaríamos inventar doenças para suportar quem somos.

Não sei se um dia saberemos de onde viemos e para onde vamos. Não sei se um dia saberemos porque envelhecemos e porque morreremos. No entanto, não consigo sobreviver sem cravar em mim algum sentido por estar vivo.

Posso ser considerado a pessoa mais poderosa, mais bonita, mais inteligente e mais rica do mundo. No entanto, nada disso importa se eu não tatuar em mim algo que me faça ficar motivado para seguir. Não é a dita feiura que é o pior. Nem a pobreza. Nem a ignorância. Pior é a dor de não saber de si.

Saber de si é uma exigência que atravessa a todos: ricos, pobres, brancos, negros, homens, mulheres, heterossexuais e lgbts.

Podemos encontrar respostas para todas as nossas necessidades físicas, intelectuais, emocionais e espirituais. No entanto, se não tivermos, minimamente, algo que acalme a nossa existência, não suportaremos as dores desse não-saber.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

DA NATUREZA, NINGUÉM PASSARÁ …

Por que gosto – por exemplo – de Guimarães Rosa e Almodóvar? Porque não se trata de uma fala vazia. Não entendo como alguém consegue sobreviver aquém de sua existência. Me incomoda muito os enigmas da vida. O fato de não termos respostas para as nossas questões mais cruciais, não significa que não devemos indagar sobre o sentido de estar vivo. Qual é o sentido de perguntar de onde viemos e para onde vamos? É porque não temos respostas sobre nós mesmos e sobre o que nos angustia, que não conseguimos parar de perguntar. É porque perguntamos que desenvolvemos a nossa inteligência. Desenvolvemos a nossa sensibilidade. Nossos valores e sentimentos. É porque perguntamos que nos humanizamos. O problema é enlaçarmos alguma palavra nisso que nenhuma palavra toca. No entanto, é exatamente isto que dá consistência à nossa inteligência. É por isto que tem vida curta qualquer o conteúdo que só se reveste de banalidades. O bom cinema é aquele que me faz pensar sobre a minha existência. O bom teatro não é aquele que me faz rir por rir, mas aquele que me faz ir de encontro ao que trago de mais patético como humano de uma maneira engraçada. Bom é ir vivendo e experimentado o que do viver não é vida. Só suicida aquele que em algum momento pensou que a vida pudesse não ser contraditória. Só sai passando por cima de tudo e de todos, aquele que acha que nada vai passar por cima de si em algum momento. No final, é inevitável que seremos todos sucumbidos. É uma grande bobagem achar que homens, brancos, ricos e heterossexuais não terminarão do mesmo jeito que mulheres, negros, pobres e lgbts. Se a justiça do mundo falha, a natureza nunca vacila. Da natureza, ninguém passará.
Evaristo Magalhães – Psicanalista