POR QUE O MUNDO ESTÁ ESSE INFERNO?

Acho uma ingenuidade pensar que o que penso de mim é o mesmo que as pessoas pensam de mim.

Ou seja, é uma inocência pensar que as pessoas me acham bonito tanto quanto eu me acho.

Não existe essa consonância entre o que penso que sou e o que as pessoas pensam de mim. Por que?

A vida não faria sentido se fôssemos todos espelhos uns dos outros.

É por isso que pessoas se odeiam ou brigam entre si. Carregamos essa ilusão narcísica de que somos amados como gostaríamos. Como isto não existe, partimos para ignorância quando a diferença vem à tona.

Só sabemos do amor. Não fomos educados para o desamor.

No fundo, não queremos é saber a verdade quando alimentamos a crença de que a vida é só sincronia.

Somos contraditórios. Somos juventude e velhice, vida e morte, perdas e ganhos.

É contra as perdas que não suportamos, que reagimos com hostilidade quando alguém diz o que não esperaríamos ouvir.

Viver a diferença é de fundamental importância: serve para o nosso crescimento e serve como catarse para a agressividade daquilo que nada e nem ninguém pode resolver por nós.

Qual importância dessa agressividade que carregamos e é sem solução? Ela quebra a nossa arrogância, nosso narcisismo e cobra a nossa humildade.

O mundo permanecerá um inferno enquanto não nos admitirmos finitos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ OUVE VOZES?

Todo mundo ouve vozes.

Somos as vozes que gostamos e as vozes que rejeitamos.

Não há a voz da vida sem a voz da morte.

Todo amado escuta a voz da traição e da possibilidade da perda.

Tudo é saber. Sabemos do que queremos e do que não queremos.

O pânico é da voz que não se quer ouvir.

A depressão é uma tentativa de calar a voz que não se quer escutar.

A raiva é uma tentativa de massacrar a voz que insiste em ser ouvida.

São infinitas as vozes que nos atravessam.

Não existe medicamento ou cirurgia para elas. São vozes que carregamos. Vozes nossas. Vozes incaláveis.

São vozes que inventamos com seus respectivos sentimentos de medo e de pavor. São invenções da própria linguagem. Sabemos seus nomes, suas imagens e seus sons.

Nenhum voz deveria nos angustiar ou desesperar. Não deveríamos comparar, julgar e hierarquizar o que se passa em nossas mentes. Tudo somos nós.

Deveríamos tratar as vozes que não gostamos com a mesma naturalidade com que tratamos as vozes que gostamos.

Não o fazemos. Queremos silenciar o que nos atemoriza. A questão é que quanto mais tentamos calar isso, mais força damos para que isso reverbere – ainda mais forte – em nossos ouvidos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE SÃO PESSOAS PROFUNDAS?

Somos superfície e profundidade.

A questão é quando o superficial quer eliminar o profundo.

O que é o superficial? É a vida cotidiana. É acordar, tomar o ônibus, ir para o trabalho e divertir um pouco nos finais de semana.

O que é o profundo? É o que o superficial tenta esconder. É o que não sabemos e não controlamos. É o que nos angustia e atemoriza.

Achamos que podemos camuflar isso com nossas rotinas de trabalho, amores e consumo. Não podemos!

A psicanálise nos coloca diante desse profundo. Ou seja, nada do que aprendemos na família, na escola e na religião pode nos ajudar quanto à essa angústia.

Quantos agora estão desistindo ou se entupindo de medicamentos porque não estão dando conta desse insuportável?

Qual a importância desse profundo em nossas vidas? Ora, conforme já foi dito, nada do que nos deram foi suficiente para nos acalmar diante disso. Portanto, precisamos abrir mão de tudo que sabemos e inventarmos por nós mesmos quem seremos a partir disso que é puro osso.

O bom é que o que inventarmos aí será algo genuinamente nosso.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

AMAR É IMPOSSÍVEL …

O amor é impossível? Sim. Isso significa que não podemos amar? Claro que não.

O que é o amor?

Há algo na vida que é impossível. Não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos. Somos finitos.

Esses enigmas nos causam angústias e medos.

Não podemos amar esperando que o outro nos supra nisso que nem ele mesmo consegue suprir em si.

É nesse sentido que o amor é impossível.

Precisamos separar o que é do amor do que é só nosso.

Os casais brigam quando um quer do outro o que ele não tem para dar.

Portanto, amamos porque é bom estar junto, conversar, tocar, beijar e transar.

Não podemos querer que o outro cubra nossos destemperos existenciais.

O amor é menos do que pensamos dele.

Que poder nos foi dado no amor? Podemos apenas usufruir de amar. Não podemos querer do amor o que não temos nem mesmo certeza de que Deus nos dará.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO EXISTE NARRATIVA PARA A MORTE …

Essas narrativas que inventamos sobre hipnose, regressão, auto-conhecimento e auto-controle só funcionam para preencher um silêncio que carregamos e que nos é insuportável.

Podemos criar narrativas sobre o amor, sobre o céu, sobre o inferno, sobre o poder, sobre a estética, sobre terapias e sobre medicamentos. No entanto, nada nos livrará do fato de que vamos envelhecer e morrer.

Não existe narrativa para isso. É por isso que o psicanalista é sempre tão silencioso. É com esse vácuo que temos nos haver.

Nossa qualidade de vida dependerá de quais palavras colocaremos sobre isso.

Nenhuma das que possuímos até hoje conseguiu dar conta. Deve ser por isso que tantos estão depressivos ou desistindo de continuar.

Deitamos no divã para inventar qual nome próprio daremos para isso que nos é inominável.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

MATAR NÃO PODE SER A LEI …

Já nos demos conta de que existe uma parcela da população brasileira que vota em políticos que incentivam a misoginia, o racismo e a homofobia.

Agora, estamos constatando essa mesma parcela votando em políticos assassinos.

Caiu a máscara daqueles que dizem que é melhor matar que deixar viva uma feminista e que é melhor voltar à escravidão que deixar um negro em igualdade de um branco.

O Brasil tomou o ódio como regra. É assustador! Parece que quanto mais o político mata, mais prestígio ele conquista.

Isso não é política, isso é guerra.

O ódio não pode ser o sentimento mais importante de uma nação. Ninguém pode ser admirado porque dissemina a raiva e a perseguição.

Hoje, no Brasil, o poder descobriu que dá voto invadir uma favela atirando à ermo.

O problema é que quanto mais esses políticos são admirados, mais se sentem à vontade para continuar resolvendo pelo extermínio.

O monstro não é só o gestor. O governador é apenas o reflexo de seus eleitores.

Não mais ganha fama, no Brasil, quem defende a educação, a cultura, o emprego e a distribuição de renda como formas de construção de uma sociedade melhor para todos.

Muito pelo contrário, descobrimos um Brasil doente. Descobrimos que pessoas próximas a nós, que antes considerávamos amáveis, no fundo, odeiam os negros, os pobres, as mulheres e os lgbts. São pessoas que odeiam, inclusive, quem defende essas minorias.

Creio que não se importariam se fôssemos nós que estivéssemos sendo assassinados.

É óbvio que ficarão revoltadas se jogarmos isso em suas caras. No entanto, sabemos que é assim que são porque estão mudas diante dessas atrocidades. É como se projetassem o que pensam nos monstros que elas mesmas elegeram.

Quero ver como reagirão quando esses mesmos monstros resolverem bater em suas portas.

Evaristo Magalhães – Psicanalista